21 de agosto de 2017

As Lições de Katherine Watson

"— Arte só é arte até as pessoas certas dizerem que é.

— E quem são essas pessoas?" 
Eu não costumava questionar isso. O que é arte, digo. Mas hoje, depois de uma reflexão da minha amiga na faculdade, eu passei boa parte da noite pensando sobre o assunto. 

Nosso professor de História da Arte exigiu que nós apresentássemos alguma arte nossa no fim desse semestre, já que estaríamos estudando com os alunos de Design. Eu gosto de arte, mas não acho que sou muito boa em fazer a minha própria. Fiquei com medo. Ela, como aluna de Design, me disse "Nós somos designers em formação, não artistas", e isso ficou na minha cabeça. Um semestre atrás, eu decidi que não queria fazer Design, que não me daria bem porque não achava que queria fazer arte, achava que queria falar sobre ela. Ai vem minha amiga e me joga isso.
Voltei pra casa e decidi ver o filme que tanto me falavam, mas que eu sempre procrastinava pra ver. E graças aos deuses eu fiz isso, ótimo timing! Depois dessa pequena historinha sobre como eu decidi ver esse filme, vamos ao post!

Então temos a Julia Roberts interpretando a brilhante professora de História da Arte, Katherine Watson. Não é única estrela de Hollywood nesse filme de 2003 dirigido pelo maravilhoso Mike Newell, há também a Kirsten Dunst, a Maggie Gyllenhaal, a Ginnifer Goodwin e a Topher Grace. Numa sinopse bem simplificada, a Srta. Watson aceita um trabalho na conservadora Universidade de Wellesley para mulheres afim de tentar fazer com que as alunas, que almejam apenas o casamento, comecem a pensar por si mesmas e fazer suas próprias histórias. Óbvio que nem os diretores da Universidade e nem as estudantes sabem disso. Sendo assim, entre meados dos anos 1953 e 1954, a professora causa uma tremenda bagunça na cabeça e na vida das universitárias (Acho que estou ficando melhor nisso, nas sinopses, quero dizer).

Aqui vai mais uma pequena curiosidade sobre a minha vida que se relaciona bem com o filme. Katherine Watson não é casada. Minha professora de matemática do Ensino Médio também não. O fato de Katherine não ser casada, trazia um monte de questionamentos e medos pra as mocinhas da Universidade de Wellesley. Assim como, por incrível que pareça, o "solteirismo" da minha professora, trazia pra as meninas da minha escola até o ano passado e com toda certeza, continua trazendo. Trazia até a mim. Eu nunca quis me casar, e ainda não quero. Quando eu era mais nova, sempre dizia que nunca me casaria, que era independente demais pra isso. Depois, comecei a pensar que não esperaria pelo casamento, mas que se acontecesse, tudo bem, desde que eu tivesse certeza do que queria. Eu não pensava exatamente no acontecimento, mas esperava ter pelo menos a oportunidade de responder a um cara. 

Quando conheci a professora de matemática, fiquei com medo. Ela disse que nunca namorou e nem nada, mas que não sentia falta. As minhas colegas ficavam muitíssimo espantadas, tentavam juntá-la com qualquer professor não casado. "Você mete medo nos meninos, Thainara, vai acabar que nem a professora". Eu sempre respondia com todo orgulho que não me importava, mas eu me importava sim.

"Nem todos os que vagam são sem rumo"

Minhas amigas começaram a namorar. Nós fazíamos festas do pijama e não assistíamos mais filmes de terror, nós pintávamos as unhas e falávamos sobre como elas queriam se casar com os namorados e terem filhos. Como elas pensavam na universidade e nos ansiados trabalhos considerando os futuros maridos primeiro. Fui perguntar a dois desses "futuros maridos" se eles esperavam se casar com elas. Eles riram e disseram que isso estava muito longe ainda. Forcei um pouco mais. Um disse que não, outro disse que não pensava em casamento, que era novo demais pra isso.

O quão assustador é que as meninas de 2016 se pareçam tanto com as de 1950? O quão assustador é que os meninos não pensem em casamento primeiro (e às vezes nem segundo), enquanto isso é óbvio pra a maioria das meninas?

Katherine pergunta em um momento do filme, como os artistas retrarão elas, as meninas dos anos 50, em alguns anos. "As garotas que conseguem passar as camisas dos maridos enquanto estudam ao mesmo tempo"? E como será que nós meninas do Séc. XXI seremos retratadas em alguns anos? "As garotas que conseguem sonhar em ser esposas e militarem em causas feministas ao mesmo tempo"?

"O contexto de onde vemos, afeta o modo como vemos"

Como feminista, gosto de pensar um pouco mais nas nossas opressões invisíveis que naquelas que temos um monte de mulheres incríveis tentando mudar. Gosto de problematizar o que nós consumimos, o lugar que nós ocupamos, o que estamos quase fadadas a pensar. "Família certa, arte certa, pensar certo". É importante que se pense em violências mais visíveis, mas as simbólicas não são menos legítimas. Um filme, um best-seller, uma canção podem sim nos escravizar mais ainda. Arte é um modo de "libertação", mas pode nos aprisionar ao mesmo tempo. A Disney, se é que você considera os seus produtos como arte, está ai pra nos ensinar a pensar desde pequenas que todo relacionamento deve nos levar a uma conclusão oficial. Que os homens babacas podem mudar se formos perseverantes. Que nosso final feliz depende mais deles do que de nós mesmas. Que final feliz tem a ver com o amor que recebemos e não com o que temos por nós. Pois bem, Katherine diz que não. E eu acho que um monte de meninas precisam ouvir isso.

Não existe um papel para o qual nós nascemos. Nós nascemos pra viver e pronto. Precisamos parar de pensar que nós devemos ser isso ou aquilo. Sendo "isso" ser bem-sucedidas nos relacionamentos e "aquilo" bem-sucedidas no que devemos fazer profissionalmente. A gente não deve nada. Aliás, até devemos sim. Como a Srta. Watson recomendaria, devemos ser subversivas, questionadoras e acima de tudo, devemos achar nossas próprias verdades. Ou não. Não conseguimos nem definir o que é arte, imagine verdade! 

"O horizonte é uma linha imaginária que recua quando você se aproxima" 

Como última lição, Katherine me ensinou a desapegar. Isso é outra coisa que nos segura violenta e fortemente. Não deixamos o que nos faz mal ou o que apenas não faz mais sentido ir. A gente sempre acha que vai se arrepender ou que não somos suficientes pra nós mesmas, pra encontrarmos outra coisa ou pessoa que nos faça melhor. Infelizmente esse é um medo que ainda me perseguirá por um tempo, mas enquanto estou inspirada por esse filme, prefiro pensar que a partir de hoje eu vou ser mais "livre". Pelo menos eu vou tentar. 

Pra vocês, minha lição é: Assistam a O Sorriso de Mona Lisa!
Esse filme não é aclamado pela crítica e nem nada e contabiliza uma nota bem ruinzinha no Rotten Tomatoes. Tem sim alguns erros cinematográficos e talvez o roteiro pudesse ter sido melhor. Mas eu não consegui não me apaixonar pelo filme e pela Katherine, e quando uma obra me faz ficar encarando o teto por meia hora, ela merece meu total respeito. O que eu admiro nesse filme são os porquês que ele deixa pelo caminho, apesar de muitos críticos odiarem a ausência de respostas. Como Millôr Fernandes (um dramaturgo, jornalista e humorista brasileiro) fala maravilhosamente: Porquê? é filosofia. Porque é pretensão.

9 de agosto de 2017

Diário de Leitura 002 & Assistidos Recentemente 003 (Juntos sim, porque se juntos já causam...)

Olá pessoas! Faz muito tempo que eu não faço post de lidos e nem assistidos, mas esse mês decidi fazer. Acho que por estar de férias no mês passado, eu acabei tendo mais o que consumir do que quando eu acordo de onze da manhã, vou pra faculdade, volto às 19h e durmo até a madrugada, onde eu revejo Gilmore Girls ou escuto músicas antigas. Infelizmente, esse tempo está chegando de novo. Pra alguns de vocês e pra alguns dos meus amigos já chegou e eu tô meio triste, porque parece que não aproveitei muito. Eu sempre penso assim, não importa o que eu faça. Mas enfim, espero que esse semestre seja melhor do que o anterior. Eu ia até pegar umas eletivas, mas do jeito que tá foda pra se adaptar só com as aulas normais e o grupo de estudos, imagine se eu pegasse mais matérias! Vou esperar esse ano acabar e ver se 2018 vai ser mais de boas. Espero que sim!

Manifesto do Partido Comunista e A Dama das Camélias

Eu li o Manifesto no início do mês, assim que ele chegou da Amazon. É um ótimo livro, mas acho que devo mais à edição que escolhi, que é a 3° da Edipro. Tem não somente o Manifesto, que é bem curtinho, mas documentos históricos, prefácios escritos pelos autores para as edições russas, polonesas, alemãs e italianas de 1848 à 1892 e ainda os estatutos das ligas comunistas. É um livro interessantíssimo que agrada não somente os interessados em entender o marxismo, mas os interessados em História em geral. Como os próprios Marx e Engels falam em um dos prefácios, esse não é um livro pra ser idolatrado, mas é destinado aos proletários do século XIX, sendo assim, nem tudo vai ser atual e muito do que é desatualizado, pode ser adaptado às diversas esferas contextuais de cada leitor. Mas ainda assim, é impressionante como o livro pode ser bastante atemporal e se aplicar a realidades bem diferentes da europeia. Recomendo muito! 
Eu comprei A Dama das Camélias na Amazon Day por três motivos. Primeiro porque eu sou LOUCAMENTE APAIXONADA por Alexandre Dumas (o pai) e nunca na minha vida, li um romance francês que não se tornasse um favorito. Depois, A Dama das Camélias foi o que inspirou Alencar a escrever Lucíola, que é um dos meus favoritos nacionais e uma grande surpresa (junto com Senhora), porque eu não gosto da escrita do Alencar. Então eu precisava conhecer Dumas (o filho)! A edição é da Martin Claret, que eu não curto muito, mas essa veio muito boa, tenho que admitir. A diagramação é muito agradável, apesar das folhas brancas, e a capa é uma gracinha. Li em um dia porque não é possível fazer outra coisa quando se começa a ler esse livro. Sempre que eu leio alguma coisa de um dos Dumas, é como se eu tivesse voltado à infância novamente! É tão confortável que parece que o livro é o meu edredom hahaha Sério, leiam esses dois! 

Homem-Aranha: De volta ao lar; XX e Uma Beleza Fantástica

Fazia muuuuito tempo que eu não ia ao cinema! A última vez, tinha sido em fevereiro ou janeiro, pra ver Moana. Mas enfim, esse mês passado eu fui ver o Homem-Aranha. Eu não sou fã de heróis, mas gosto muito dos filmes do Peter e do Batman, então fui ver com as minhas irmãs e prima. Me surpreendi com o tanto que gostei do filme! É muito engraçado e criativo! Sem falar das diversas referências aos meus filmes preferidos, entre eles, Mean Girls. 92% no Rotten Tomatoes! (Esse é o único que não tem na Netflix)
Eu tenho uma tradição com minhas amigas e irmã, de que sempre que formos dormir juntas, temos que ver um filme de terror. Esse mês, foi XX, na Netflix. É realmente muito bom! É dividido em quatro contos de horror, uns mais psicológicos e outros mais trashs, o que ganhou meu coração! Vale muito a pena. 72% no Rotten Tomatoes!
Eu assisti a Uma Beleza Fantástica ontem. Eu tava bem à procura de um desses romancezinhos leves que inspiram e emocionam, mas não muito. E bem, ai estava essa produção do Simon Aboud que, não por acaso, lembra muitíssimo O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. É bom, mas além de me parecer uma imitação muito falha, não tem muita coesão nem nada. É meio estranho, mas não como filmes que se propõem a ser estranhos (tais como Heathers, Donnie Darko), mas como se a estória tivesse se perdido no meio da coisa toda. Mas repito, é bom. 71% no Rotten Tomatoes.

26 de julho de 2017

Sobre a solidão das transfigurações // 12 cartas em 12 meses

Aprendi com a Anne Frank que a melhor forma de desabafar e analisar os problemas que você naturalmente tentar fugir, é escrevendo. Isso me ajuda e espero que ler ajude os que estão passando por algum conflito interno ou pela mesma crise que eu.
Uma carta de revolução é meio difícil de fazer. Eu pensei por um tempo em algo que eu queria urgentemente revolucionar e o texto a seguir surgiu. Não é nenhum manifesto e não convido ninguém específico a qualquer coisa. Mas para mim, é revolucionário que eu admita que não sou mais quem eu por tantos anos tive orgulho de ser. Essa revolução acontece aqui dentro e é sobre isso que escrevi. Espero que entendam e que eu não me arrependa de ter postado rs
Aos que leem esse blog há algum tempo, eu acho que vocês perceberam a mudança de posts de 2016 pra 2017. A última coisa que publiquei aqui ano passado, foi sobre literatura. Desde então, eu passei a escrever muito mais textos e a maioria deles são sobre meus novos e incômodos impasses existenciais. Espero que isso mude em breve. E estou bem, sim. Só mais introspectiva.
Obrigada aos que permaneceram.


  • Julho: Uma carta de revolução.


Eu mudei tanto que nem consigo acreditar que ainda me chamam pelo mesmo nome. Porque eu não reconheço mais quem eu fui por tantos anos.

Eu era agitada demais, sempre parecia feliz e nunca realmente me importava. Desde a quinta série, quando me decepcionei com a pessoa que eu mais amava (e não amava como amo hoje, definitivamente), só porque eu a idealizei demais e ela não conseguiu superar minhas expectativas, eu passei anos sem me ligar intimamente com ninguém.

Sabe, quando você se sente mais sozinha, é quando precisa tomar conta de si mesma, prestar atenção na única pessoa que te acompanhará pra sempre.

E foi isso que eu fiz.

Me conectei comigo das formas mais intensas e superficiais que existem. 
Comecei a me vestir diferente, passei a prestar atenção nos meus próprios gostos, cortei meu cabelo, passei a falar o que eu queria falar sempre e com quem eu queria falar. Criei o blog, escutei indie pela primeira vez, fiz um monte de amigos virtuais, conheci o feminismo. Passei um tempo estudando reforma agrária só porque gostava do nome, debati em aulas sem me importar em ser odiada, dancei, fui ao cinema pela primeira vez e depois não sai mais de lá, escrevi sobre uma menina que queria ser presidente.

Fui à outro país, enfrentei meu medo de água, parei de usar sutiã, passei um dia sem tomar banho porque estava muito frio e porque eu me senti uma revolucionária, abracei minha mãe algumas vezes, conversei com meu irmão sem querer mata-lo depois, desenhei um vestido que hoje está fora do papel, no meu guarda-roupa. Comprei um salto que me deixa bonita e confortável ao mesmo tempo, bebi álcool com os meus amigos e não me senti culpada, fui a uma boate e me diverti muito (!!!), cantei Garota de Ipanema na frente de um monte de gringo, fiz amizade com gente do estado todo, comi bolo de sorvete e decidi que era a melhor coisa que tinha provado na vida.

Vi baleias pessoalmente, desfilei em uma passeata de natal bem ao estilo americano, chorei horrores por não conseguir me dar bem em matemática quanto o Madz e depois ri loucamente da minha imaturidade, dormi sozinha por 5 meses e passei algumas noites em claro refletindo sobre a vida ou com medo de algum filme de terror. Fui filha única por algum tempo, escutei Roberto Carlos porque estava com saudades de casa, li livros que me construíram.

Tirei nota baixa, ganhei medalhas de melhor aluna e fui oradora da classe, briguei com pessoas que importam/vam muito pra mim, perdi uma amizade que era tóxica mas que me deixa muito saudosista sempre que penso nela, cresci alguns centímetros. Dei aulas de História, quase morri com uma bronquite que me trouxe mais coisa do que tirou, passei a assistir séries, me apaixonei por musicais, participei da educação física, matei aula pra ler Júlio Verne, fiz dois ENEMs e um deles me rendeu uma boa história, assisti uma novela com minha mãe e irmã mais velha.

Fiz e fui um monte de coisas.

Mas desde que o bendito relógio chegou à meia noite e comemorei um ano novo cheio de possibilidades assustadoras, parece que dezessete anos de mim foram levados pelo mar junto com todas aquelas oferendas. E desde então, eu me olho no espelho e não consigo mais ver o que eu esperava ver sempre.

Eu gosto de quem eu sou, na maioria das vezes.

Eu acho que sou alguém que dá o que pode para as pessoas que ama. E que ama, primeiramente. Mas eu não posso não me surpreender com a forma que estou vivendo e nem posso dizer que estou satisfeita. É como se tudo o que eu posso dar fosse pouco demais até pra mim e eu acabo tentando me isolar, mas diferente de como era anos atrás, eu não me sinto mais habitada quando estou sozinha. Eu me sinto sozinha e pronto.
Pode ser que isso seja uma transição como eu desesperadamente espero que seja, mas até lá, desculpem amigos e família por eu não sair do quarto e por eu querer chorar e não conseguir. Eu sou uma péssima companhia no momento, mas eu preciso de vocês.

Me desculpo por ser assim, mas ao mesmo tempo, não quero me desculpar.

Não sei se vou voltar a ser aquela menina espirituosa que falava muito rápido e queria ser um monte de coisa ao mesmo tempo e fazia vocês escreverem diários coletivos ou aprenderem palavrões, mas eu preciso saber se vocês vão gostar da nova pessoa que vem desatando a crescer aqui dentro e que ainda não está pronta pra sair do forno completamente.

Espero que eu seja pra vocês o que aquele bolo de sorvete foi pra mim. Eu já amava bolos de festa, e achei que bolo de sorvete era diferente demais. Só que diferente é o que a gente precisa às vezes.
Thainara (?)

22 de julho de 2017

Meus dois centavos sobre o primeiro semestre de Comunicação Social

Eu usando minhas roupas estranhas que eu não tinha muita coragem de usar na escola, mas agora me sinto mais confortável pra isso

E eu enfim terminei o primeiro semestre. Foi sofrido? Sim. Mas tenho que admitir que foi mais fácil do que eu pensei que seria. Acho que a parte mais difícil não foi exatamente a academia, mas o que ela passou a representar na minha vida.

Ano passado, quando eu decidi que queria fazer uma faculdade, foi um longo caminho até eu concluir que era melhor "deixar a vida me levar". Eu queria Cinema de 2008 até 2015. Em 2016, eu pensei que talvez o nosso sistema socioeconômico fosse perturbar minha vida mais ainda se eu virasse cineasta, então eu decidi procurar por outras áreas que eu gostasse. Ciência política ou Ciências sociais, História, Filosofia, Jornalismo, e a única que talvez me trouxesse conforto financeiro mais facilmente, Direito. E eu não procurei só na Internet, quero dizer. Eu fui até faculdades, peguei panfletos, conversei com pessoas, me autoanalisei diversas vezes... No fim de 2016, eu tinha duas maiores aspirações(que eu sabia serem impossíveis porque eu não podia pagar), ser cientista política ou professora de História. 

Em 2017, "deixando a vida me levar", eu sou uma futura comunicadora. 

Eu nem sei como foi isso. O Sisu chegou, tínhamos três opções onde eu possivelmente não reprovaria todas as cadeiras: Comunicação Social, Design e Pedagogia. As últimas eu não queria de jeito nenhum. Eu sabia que se eu fosse fazer alguma delas, eu desistiria. A primeira era uma possibilidade grande. Eu tinha pensando em Jornalismo, afinal.
Minha primeira viagem acadêmica (Festival de Cinema)

Eu sempre quis fazer uma federal. Foi mais ou menos que nem a Rory Gilmore, sabe, com aquela história toda de ir pra Harvard.

Só que tem essa prima minha, que se formou na federal há alguns anos, que sempre foi uma grande nuvem escura na minha cabeça o tempo todo. Ela foi a primeira mulher a ir à uma universidade na família e até ano passado, a única a se formar em uma federal. Tudo bem, eu não realmente acredito nesse poder todo que as federais parecem ter. No ano passado, eu daria tudo pra conseguir pagar um dos cursos que citei acima. Mas temos que admitir que aqui na cidade, a federal é a que mais alcança os níveis pedagógicos que se espera de uma instituição de ensino superior. E tem todo o lance do renome e tal. 

Então sim, eu queria ir pra um federal. Mas a famosa insegurança me fez acreditar religiosamente que eu nunca chegaria lá. E eu fiz a pior coisa que poderia ter feito nesse caso. Não tentei.
Quando saíram as notas do ENEM 2016, eu estava muito arrependida de não ter estudado, mais ainda assim, me inscrevi no Sisu. E bem, parece que os dezessete anos que eu passei estudando não foram em vão. Passei. Foi bem feliz, confesso. Fiquei dias vendo vlogs de primeiro dia de aula, de materiais escolares, de looks para a faculdade... E então o primeiro dia de aula chegou, e eu descobri que não sabia de nada mesmo.

Se juntos já causam, imagine juntos (com uma qualidade péssima)

Aqui vai um breve relato dos últimos meses:

Eu não estudo no campi da UFPE, mas em um anexo no Polo Comercial da cidade. Isso é uma grande decepção, pra ser honesta. Meu sonho era ter toda a "experiência universitária", conhecer gente de diversos cursos, comer na cantina com meus amigos e tudo o mais que eu via nos filmes. Eu tive vários devaneios em que eu estava deitada na grama verdinha do campus e chorava por estar extremamente estressada com a minha nova vida de adulta, usado um headphone pelo qual eu escutava Mad World do Tears for Fears. A parte de chorar ainda tá de pé, mas a grama verdinha faz parte apenas do mundo das ideias, infelizmente. Estamos tentando mudar isso(de estudar no anexo), mas não tenho muitas esperanças.
Por causa do primeiro fato, também me decepcionei um pouco com a infraestrutura, mas tudo bem, eu estava esperando demais de uma instituição social brasileira, como eu sempre faço.
Sobre as matérias! Tivemos cinco. Mídia e Cidadania, História da Mídia, Técnicas de Redação, Sociologia da Comunicação e Filosofia. Eu achava que a minha preferida seria História, mas adivinhem a minha surpresa quando descobri que Filosofia seria aquela que me empolgaria mais. E Sociologia, mas essa eu já esperava.

Mídia e Cidadania foi boa. No começo, eu odiava. No meio, passei a me conformar. No fim, gostei. Foi meio prática, apesar de que lemos dois livros (A Ordem do Discurso de Foucault e O que faz o brasil, Brasil? do Roberto DaMatta). 

História da Mídia foi realmente muito boa. Lemos um monte de coisa e escrevemos sobre o que lemos. Basicamente isso. Eu gostei, porque eu amo teoria e o meu comfort place é ler e escrever sobre o que eu estou lendo. Em suma, o professor foi brilhantemente organizado e promoveu um grupo de estudos sobre gênero e sexualidade que me bagunçou mais do que eu já estava bagunçada.

Técnicas de redação me surpreendeu, porque eu gostei muito do conteúdo das aulas e mais ainda do professor. Eu sempre ouvi que os professores da UFPE eram na verdade pesquisadores que odiavam lecionar mas que eram obrigados a fazê-lo, por isso não sabiam bem como ensinar e eram mais tiranos que governadores fascistas. Ai veio esse professor com uma didática incrível. Foi basicamente tudo prática. Aprendemos a escrever pra veículos de comunicação e só. Foi desafiador e fez eu me perguntar se eu realmente quero escrever for a living. Sabe, são muitas forças que agem desde eu escrever alguma coisa até eu lançá-la para o mundo. O último trabalho do semestre foi escrever uma reportagem com um assunto que te interessasse e eu escolhi falar sobre as mulheres na universidade e foi com certeza um dos trabalhos mais difíceis que eu já fiz. Eu passei uma semana me sentindo muito mal depois das informações horríveis que coletei, e até tive que censurar umas partes (porque segundo o professor, eu poderia ser processada por algumas acusações presentes nos depoimentos) mas foi uma experiência muito boa no fim das contas.
Duas fãs de Gilmore Girls (Próxima Primavera) sobrevivendo ao transporte público

Sociologia da Comunicação foi maravilhosa! Estudamos um monte de coisa, mas como sempre, minha parte preferida foram os três porquinhos da Sociologia Clássica (principalmente o vermelho). Infelizmente tivemos muitos feriados pra atrapalhar a frequência das aulas, mas no fim deu tudo certo. Vou sentir falta dessa aula e desse professor.

Filosofia foi também maravilhosa! Eu descobri que gostava de muitas coisas com essa cadeira, o que me fez muito feliz e muito frustrada ao mesmo tempo. Pensei tanto que estava no curso errado e que eu deveria estar estudando um curso teórico que me desanimei por um tempo. Os professores de Filosofia e Sociologia me disseram que eu tinha bons padrões acadêmicos e que eu deveria focar em pesquisas e nas áreas mais teóricas. Com isso, eu conclui que ou deveria mesmo estar fazendo outro curso, ou que posso me destacar na prática porque tenho também teoria (foi o que o meu professor de Filosofia disse quando eu falei que estava quase me desesperando por querer fazer História, mas ao mesmo tempo querer fazer Comunicação e achar que não ia gostar de trabalhar como comunicadora, mas quem sabe? Vai que eu seja a próxima Christiane Amanpour ou sei lá). O problema é que não sei se gosto da prática. Vamos descobrir em quatro anos.

Encontrando versos de Manuel Bandeira na minha odisseia de todos os dias

Pensei que as matérias me consumiriam mais, mas achei todas razoavelmente fáceis e gostei de todas elas. O que mais me incomodou na verdade, foram três coisas: 1. Estudar no Polo e tudo o que isso acarreta(pegar dois ônibus pra ir e voltar todos os dias, sair de casa uma hora e meia antes da aula e chegar em casa uma hora e meia depois, não ter a "experiência universitária" completa e etc); 2. Conhecer novas pessoas que são muito diferentes das "novas pessoas" que eu conhecia na escola e 3. Acho que estou finalmente passando pelo luto da infância.

Eu estou gostando do curso. Realmente. Essas crises existenciais estão aqui porque eu estou aqui, então essas coisas vêm junto. Eu só preciso aprender a lidar com elas.

Preciso parar com as comparações. Todas! Entre pessoas, entre acontecimentos, entre o curso e o ensino médio, entre 2016 e 2017... Eu estou com muita saudade de como minha vida era antes desse negócio todo de ENEM, Sisu, UFPE... No entanto, as mudanças iriam chegar querendo eu ou não. Não sou uma vampira, apesar de me vestir como uma, então não vou ser pra sempre adolescente como o Edward Cullen. Os assustadores 20 vão chegar. E depois 30, 40, 50... Eu tenho que fazer alguma coisa sobre a minha existência até lá.

Por fim, eu espero que no próximo semestre eu esteja mais preparada. Eu quero estudar mais do que fazer qualquer outra coisa. Quero chegar a dezembro com a certeza de que meu cérebro armazenou mais informações do que eu imaginei que poderia. Quero sentir que estou fazendo alguma coisa com as minhas próprias pernas. 
O vento já me levou por tempo demais.

15 de julho de 2017

Minha bolsa amarela // 12 cartas em 12 meses

Esse post tá bem atrasado, mas eu o escrevi sem atraso nenhum. Acontece que eu não sentia que era hora de postá-lo ainda, esse texto estava muito mais comigo do que com vocês. Não sei se dá pra entender. Mas aí está, com 15 dias de atraso. Estou bem melhor e, possivelmente, achei minha bolsa amarela.
Acabei de chegar do ato pelas Diretas Já, e como sempre, estou me sentindo meio utópica e meio gerascofóbica. O que combina muito com a carta de junho.
  • Junho: Uma carta para a infância.

Eu tenho um livro velho na estante pra sempre que eu me sentir uma bagunça completa, ler.
Já fazia algum tempo que eu não me sentia assim, então eu nem lembrava mais dele.

E acho que eu não me sentia assim, porque eu não estava realmente pensando em como me sentia.

Até ano passado, eu existia em vários lugares e pra várias pessoas. Eu tinha muitas coisas a fazer e resolver. Mas ai, antes do ENEM, eu meio que cai na armadilha de pensar no que eu queria fazer pra a vida toda. Comecei a me autoanalisar demais, a tentar decifrar meus sentimentos.  Foi quando eu quase me senti uma bagunça, mas não deixei que o pensamento se instalasse, voltei a me atarefar e sair de casa todos os dias.

Esse ano, porém, eu estou na universidade e só. Eu tenho outras atividades, mas ainda assim, parece que a universidade é onde eu moro agora. E ai, eu me acomodo, e começo a pensar em mim mesma. E eu odeio fazer isso, mas quando acontece, é difícil parar. No entanto, infelizmente, isso vai acontecer vez ou outra e eu preciso aprender a lidar. 
Eu tenho 18 anos e parece que eu vivi um monte e ao mesmo tempo não vivi nada. Quando falo sobre mim mesma, parece que eu me conheço muito, mas sempre que alguém me chama pelo nome, eu ainda preciso me lembrar que Thainara sou eu.

E agora, Thainara é uma bagunça.

Em um curto espaço de tempo, minha vida deu um salto ridículo. 2017 mudou tudo e nada. E eu não estava preparada de jeito nenhum. Quer dizer, não que eu fosse estar um dia.

E eu ando pensando bastante em você, infância. É uma saudade que eu sempre vou ter, eu acho. Hoje, um amigo me enviou uma música do John Lennon que me lembrou a minha época de criança. Quando eu ainda era um monte de coisas sem ser realmente nada. Quando eu não estava preocupada em ser alguma coisa. Nesse tempo, eu ia sempre para a casa da minha tia, e a gente ficava lá contando histórias de terror e depois assistíamos algum DVD de clipes antigos. Elton John, Bryan Addams, Air Supply, Cindy Lauper... Eu amava tanto aquelas pessoas, aquela casa e aqueles DVDs que sempre pensei que nunca pararia de passar minhas tardes lá. E um dia, eu cresci. E minha infância foi embora levando um monte de coisa junto.

Às vezes eu me pego pensando que deveria ter feito mais. Que fui muito precoce em certos pontos, mas em outros, estendi minha infância por um tempo demasiadamente longo. Demasia pra mim, que sou geração z, que morro de medo de sair do lugar, mas fico aflita por achar que estou paralisada. Eu nunca vou te entender, infância, mas a saudades que eu tenho de você é, eu tenho certeza, eterna.

Então, essa semana, no ápice da minha confusão mental, eu fui até a estante e peguei meu exemplar velho e surrado de "A Bolsa Amarela" da Lygia Bojunga.

É incrível pra mim, quanto uma criança inventada em 1976 me representa tanto.Sempre que eu leio esse livro, eu me sinto a Raquel. Eu morro de vontade de ter uma bolsa amarela também, pra guardar minhas vontades. E no momento, eu sou um poço de vontades. E elas desatam a crescer que nem as da Raquel, só que eu não tenho onde guardá-las. E eu não gosto que elas fiquem por ai, fazendo amizade com as pessoas. Porque então elas criam pernas e de repente eu nem sei mais onde eu estou.

Decidi que minha bolsa amarela vai ser alguma atividade que me exija frequência e esforço, mas que não seja nada acadêmica. Não sei ainda qual vai ser, mas tem que ter um fecho bem forte, pra esconder as minhas vontades e a coisas que elas vão inventando.

Enquanto isso, eu tenho a Raquel, o Afonso (ou Rei), a Lorelai, a guarda-chuva, o fecho bebê...
E como a Raquel gosta, eu tenho uma história pra ler que começa e termina. Tenho várias pra ler e reler enquanto a minha própria história está enguiçada que nem a da guarda-chuva, namorada do Afonso.

Literatura é minha única certeza agora. E eu acho que vai ser sempre.

Thainara
P.S.:Eu sinto muito muito sua falta. Mas acho que vou ter que enfiar a saudade dentro da minha bolsa amarela também.

10 de julho de 2017

Diário de leitura 001

Eu preciso muito começar a contabilizar o que eu estou lendo.
Aqui vai um grande problema que eu enfrento desde que eu me apaixonei pelo Jules Verne e li todos os livros dele que consegui encontrar no fim do ano passado: Eu entrei numa ressaca literária horrorosa e não consigo mais ler um livro só.
Acho que o último livro que eu terminei com total atenção focada à ele foi o Menina Má. Desde esse acontecimento, eu comecei a ler um bocado de coisa muito diferente junta e eu nem sei mais o que eu tô lendo, o que eu abandonei, o que eu devo deixar pra depois...
Isso é um grande problema pra mim, porque eu sinto que estou perdendo o meu ano de leitura inteiro e eu gosto de me sentir produtiva. Vou tentar escrever esses "diários de leitura" aqui, pra ver se isso me instiga a ler um livro só (ou pelo menos dois).

O que estou lendo agora!

Caixa de Pássaros do Josh Malerman 
Depois que eu li Menina Má, eu quis muito ler um thriller psicológico contemporâneo, e Caixa de Pássaros fez um sucesso enorme ano passado, eu decidi ver se era realmente bom. Já faz um tempão que eu parei de ler literatura de horror, mas ultimamente estou tentando voltar. Infelizmente, o Josh Malerman tem uma escrita muito diferente dos meus autores preferidos do gênero: Gaston Leroux (suspiros), Edgar Allan Poe, Henry James, Bram Stocker, William March... Eu acho que preciso me adaptar mais aos contemporâneos. Até agora, a leitura não está sendo muito boa, mas não vou abandonar.
Vampire Academy da Richelle Mead
Esse eu decidi ler porque já faz um tempo enorme que não leio em inglês. Nada mais a dizer de concreto. A leitura é boa, gosto de vampiros...
Morte Súbita da J. K. Rowling
Esse livro é que nem o Getúlio Vargas, divide muito as opiniões! Foi por isso que eu quis ler, mas também porque nunca li nada da J.K., o que é estranho se você gosta de ler. Até agora, eu não sei realmente o que está acontecendo. Ela conta a história de diversas famílias numa cidadezinha inglesa e como elas estão reagindo a morte súbita de um dos representantes da cidade. Só. A escrita dela é muito boa, há que se admitir. Realmente não sei se vou gostar desse livro.
Razão e Sentimento da Jane Austen
Perfeito, como eu esperei que seria.
***
Como se pode perceber, os quatro livros são extremamente diferentes em época e gênero! Além desses, eu tava lendo o Obras Filosóficas do Bertrand Russel(que eu gostei muito, a propósito), mas eu finalmente terminei! Acho que o próximo a ser finalizado vai ser Vampire Academy, mas vamos ver.

Metas de leitura pra esse semestre!

Manifesto do Partido Comunista do K. Marx e F. Engels
20.000 léguas submarinas do Jules Verne
Nêmesis da Agatha Christie (talvez eu leia A maldição do espelho ou Os trabalhos de Hércules)
A casa das sete mulheres da Letícia Wierzchowski
Madame Bovary do Gustave Flaubert
A abadia de Northanger da Jane Austen (ou talvez eu leia As novelas inacabadas, Juvenília, Mansfield Park ou Persuasão, mas até agora eu estou mais animada para ler esse)

Todas as metas são de livros que eu já tenho e que eu comprei pensando que queria muito desesperadamente ler (principalmente o do Verne) e acabei não lendo. No fim do semestre, vamos ver se eu consigo diminuir o número de livros não-lidos na estante!
***

Não vou participar da #MLI2017 ~CHOREMOS~ mas eu vou tentar voltar ao ritmo. No fim do ano, eu venho dizer quais foram os meus sucessos e fracassos de 2017. Até lá!
*O 12 cartas em 12 meses tá atrasado, mas vai sair!*

29 de junho de 2017

Biologia


Thomas era uma confusão.
Por causa disso, por causa da urgência quase tangível de entender a si próprio, resolveu entender a todos.
Anatomia, genética, herança, DNA...
Talvez isso fizesse da natureza humana algo inteligível e, desse modo, o rapaz entenderia o redemoinho que ele mesmo era.
Que piada! A ciência se tornou apenas mais uma aliada da confusão.
E ainda deixou em Thomas mais uma marca de paixão incompreendida...
O ser ou não ser, caro Thomas, é algo que nem Shakespeare explica.

Eu achei esse texto num caderno bem antigo. Acabou me representando tanto nesse momento que decidi postar aqui. É assim que eu crio personagens, eles só vêm (com nome, aparência e tudo), e eu fico com uma vontade danada de botar eles no papel. No papel mesmo, gosto de trazê-los ao mundo escrevendo com lápis. Me sinto Deus, como falei no post anterior. Daí, se o meu personagem ficar meu amigo ou se eu me apaixonar por ele, não largo nunca.
Mas às vezes esqueço e deixo pra lá. Só que nesse caderno tem tantos textos sobre esse Thomas que eu até me assustei. Thomas não existe, mas parece que eu o conheço mais do que conheço a mim mesma. Ou talvez ele seja um jeito que eu encontrei de me entender. Acho que vou trazer ele mais vezes...

21 de junho de 2017

Sobre como, honestamente, nomeei esse blog

Eu sempre odiei o som do verbo "conformar". Eu não queria participar dessa melodia esquisita. E por muito tempo na minha vida, ser "conformista" era um xingamento.
Só que essa semana, mediante todos os acontecimentos que me pegaram de surpresa, eu decidi, inconformadamente, me conformar.
Em toda a minha existência, a coisa que eu mais amei foi controle. Eu sempre quis controlar tudo ao meu redor. Por isso, quando eu era criança, decidi que seria desenhista. Minha mãe me perguntou porque, falei que queria ser dona do mundo, queria desenhá-lo, ter pleno controle dele.
Uns anos mais tarde, descobri a escrita. Foi quando me senti quase completa. Eu escrevia toda hora e ilustrava meus escritos, criava meus universos duplamente. E sempre de lápis! Eu voltava muitas vezes na mesma obra e apagava, desenhava de novo, adicionava, adaptava, coloria. Eu era Deus.
Mas então eu cresci e me vi perdida em um mundo que não havia sido criado por mim. Um mundo anterior e independente à minha existência. Um mundo que eu não controlava mais.
Escrever parou de ser um ato de dominação e virou um ato de coragem. Parei de criar e comecei a despejar os lamentos do que já havia sido criado. Desenhar não fazia mais o menor sentido. E, ah, como eu queria que esse mundo fosse meu! Queria ter escolhas e não possibilidades. Queria liberdade e não apenas contexto.
Mas no fim, é isso mesmo. Eu preciso finalmente entender que não tenho controle de nada. Que a vida gira ao meu redor e o máximo que eu posso fazer é pensar positivo. 
E tudo bem, Thainara, tudo bem. Eu me cansava das minhas narrativas loucas uma hora ou outra. Porque eu tinha tudo planejado na cabeça, não havia surpresas, nem muita coisa que me desafiasse. E às vezes, em alguns momentos, você precisa ralar pra caramba, pra que quando as coisas esperadas cheguem, possa só sentar no sofá e dizer "Que ótimo. Eu consegui". Quando as coisas vêm sempre fácil demais ou de maneira planejada demais, a gente nunca para pra agradecer o que ganhou, só nos preparamos para a próxima vitória.

17 de junho de 2017

18 coisas que eu - finalmente! - aprendi com 18

Então eu tenho 18 anos. Faz, sei lá, dois meses ou mais que eu tenho 18 anos. E eu já escrevi um post sobre isso, finalizando o projeto 18 antes dos 18. Na verdade, o que eu estava mais interessada em fazer, era escrever sobre coisas que eu aprendi até aqui, com essa existência na terra. Agora, passados alguns meses que fiz aniversário, eu me sinto mais "preparada" pra falar sobre essas coisas que eu aprendi com esses anos. Eu com certeza vou reler isso aqui sempre. E querer mudar tudo depois.

1. Eu não preciso me encaixar. É doloroso e desnecessário tentar ser "normal" ou como a maioria das pessoas. Definições com as quais eu me identifico, nunca serão capazes de totalmente definir quem eu sou o tempo todo. Elas são só um jeito que acharam pra nomear uma ideia geral. Eu sou peculiar como os outros sete bilhões de seres humanos são, então às vezes eu não vou conseguir explicar as minhas peculiaridades e nem entender as peculiaridades dos outros. Eu sempre acreditei que tudo é contexto, afinal.

2. Não posso dizer quem é "bom" ou "ruim". Como eu reclamei pontualmente no Twitter, só porque você teve uma experiência ruim com uma pessoa, não significa que ela seja ruim ou que você deva "avisar" outras pessoas sobre ela! Meus valores, preferências ou afinidade são meus! Ninguém está aqui pra se encaixar nos meus padrões morais e ideológicos (nem estéticos)! É difícil de entender, mas enquanto eu me sinto na posição de julgar quem é bom e ruim, outras pessoas também estão me rotulando desse jeito, e com certeza eu não vou apreciar. Eu entendo que a alteridade é e sempre foi um problema, mas superestimar a si próprio ao ponto de achar que pode dizer quem vale e quem não, é ridículo. 

3. Ser "diferente" não é tudo que eu tenho. Por toda a minha infância e juventude, eu achava que as minhas singularidades em comparação com as normalidades das pessoas era o que me fazia "valer a pena". Então sempre que eu achava alguém que tinha um cabelo como o meu, ou que gostava das mesmas coisas, eu ao invés de amá-la, me sentia ameaçada por ela, pensava que ela era melhor do que eu, mais autêntica do que eu. Eu sou normal, sou como as outras pessoas, eu pareço com um bocado de gente e tá tudo bem. Na verdade, está ótimo.

4. Não preciso achar que nasci pra fazer tal coisa. Até porque não acredito nisso. Ando nem acreditando em talento, na verdade. Acho que as pessoas gostam de coisas e praticam e fazem coisas que parecem boas. Mas isso é relativo, como tudo na vida.

5. Não preciso ser amiga ou gostar de todo mundo. Não posso dizer se as pessoas são boas ou ruins, mas posso dizer se gosto ou não delas, ou se quero que elas estejam na minha vida. Às vezes não tenho nenhum motivo pra não gostar de alguém e eu me sinto mal por isso. Só que na verdade, isso é uma característica humana, eu posso simplesmente não me sentir atraída por esse alguém. Ou em certos casos, algumas pessoas não mal-intencionadas me são tóxicas e eu preciso entender que a minha qualidade de vida vem primeiro.

6. Não preciso beber, ou ser sexual pra ser legal. Eu não vou ficar com pessoas nas festas, nem ficar bêbada e isso não quer dizer que vou aproveitar menos ou que não sou divertida. Eu realmente não dou a mínima pra isso. Beber demais e ficar com pessoas casualmente não é quem eu sou. Às vezes eu me sinto estranha quando estou na companhia da maioria dos meus amigos, porque parece que eu estou sendo moralista, ou sei lá. Mas a verdade é que tentar me fazer ser como eles é que realmente parece moralista.

7. Odiar pessoas religiosas não é ok. Odiar pessoas não é ok. A religião me traumatizou muito. Eu não gosto de como essa instituição me afeta e à bilhões de pessoas, e eu tenho o direito ser totalmente crítica com isso. Mas não com as pessoas que seguem religião. Elas precisam da religião, seja por que motivo for. Eu mesma preciso de certezas, crenças ou algo pra me segurar. Pessoas religiosas não são menos inteligentes ou menos legais. São só diferentes de mim.

8. Me sentir inteligente, bonita ou qualquer outro bom adjetivo não é ser arrogante. E aqui vem algo muito revelador sobre mim. Eu tenho vergonha de dizer "obrigada" e de receber elogios, mas estou sempre elogiando as pessoas. Acho que na maior parte do tempo, não me considero alguém com baixa autoestima, mas sempre que as pessoas me elogiam, eu questiono a veracidade do comentário. Será que eu sou mesmo inteligente? Meu cabelo não é nem tão legal quanto o da (insira o nome)! Eu nunca questiono os meus próprios elogios, afinal.

9. Nem sempre me sentirei inteligente, bonita ou qualquer outro bom adjetivo. Tudo bem não saber sobre um assunto, Thainara! Tudo bem não saber sobre um assunto, Thainara! Tudo bem não saber...

10. Momentos ruins não fazem minha vida ruim. 


11. Sou perfeitamente incompleta. E não preciso de ninguém pra essa autorrealização. Tudo o que eu posso fazer é me compartilhar com outra pessoa, não esperar que ela me complete.

12. Me colocar em primeiro lugar é o mínimo! Porque se eu não colocar, ninguém vai colocar. E mesmo que alguém colocasse, isso seria horrível pra mim e pra ela. Eu só vivo uma vez, como diz a Barbra Streisand, então que eu faça isso aqui ser alguma coisa.

13. Não preciso ter certeza de todas as coisas. Mas, agora, preciso ter algumas certezas.

14. Não sou uma farsa. Um dos grandes problemas de quando alguém me elogia seja pelo o que for. Eu sempre penso que não mereço de jeito nenhum ou que talvez a pessoa me ache legal porque não me conhece de verdade. Eu acho que passo tempo demais tentando ser outra pessoa que não eu. O que é um total desperdício da pessoa que eu sou.

15. Às vezes, eu preciso muito desligar o raio problematizador. E ler um chick-lit, ver comédia romântica dos anos 90, escutar as playlists da Billboard Hot 100, ver Friends sem pensar demais, analisar quando vale ou não a pena discutir...

16. Posso não concordar com as pessoas. E elas ainda serão legais! Eu posso conversar normalmente mesmo sabendo que a pessoa discorda de mim! Não dá pra falar de contexto e achar que todo mundo é igual, então sejamos coerentes.

17. Vou ter necessidades porque sou um homo sapiens sapiens! E tudo bem pedir, Thainara. As pessoas te pedem tanto.

18. Ninguém realmente se importa, mas ao mesmo tempo, se importam. E ninguém é totalmente descomplexado com isso.

5 de junho de 2017

A maldição e a benção que é ter muito pra dizer

Em um dos posts aqui do SEMFM, eu recebi um comentário que me deixou muito feliz. Assim que eu li, minha primeira reação foi sorrir e tirar print (para dias que eu preciso enxergar minha existência nas concepções positivas que as pessoas fazem de mim). Eu devo ter lido umas quatro vezes. E a última frase do comentário foi a que me marcou mais. "Admiro muito quem tem tanto a dizer como você" (Obrigada, leitor, você me fez rir e pensar).

Então, eu tenho muito a dizer. Já escrevi dois ou três posts em que falo disso. Num deles eu digo " Ando achando que estou meio vazia. (...) Vazia de palavras não! Estou tão cheias delas que me escapam sem consentimento! (...) Se a vida continuar trazendo-me palavras, e os meus dedos não me falharem, continuo escrevendo. Senão, boto um ponto final nesse infinito." Em outro, esse mais recente (o meu "comeback" depois que parei de postar no meio de 2015), no qual falo sobre a razão de eu amar a blogosfera e precisar dela, eu falo "(...)Eu era um poço de palavras, um poço bem fundo... (...) Mas a minha vida mudou drástica e felizmente. (...) Foi quando meu poço secou pra dar entrada à um novo vocabulário, este que uso atualmente. Não sei se terei olhos pra lê-lo e muito menos se terei os mesmos olhos de antigamente. Não importa, façamos tudo de novo."

Lendo esses posts, um datado de vinte e nove de maio de dois mil e quinze e outro de dezoito de julho de dois mil e dezesseis, é possível notar o quanto eu amo estar "cheia de palavras" e o quanto às vezes isso pode ser odiável. No post mais antigo, eu me reclamo de ter tanto pra falar, mas me sentir rodando e rodando sem sair do lugar. Eu reclamo de questionar tanto, mas não me encontrar em nada. Reclamo do meu medo de "pontos finais". No post mais recente, eu explico o motivo de eu ser tão apegada a esse pequeno espaço na surface da internet. Isso aqui pode ser muito irrelevante em muitos aspectos, mas eu sinto como se eu precisasse falar e ver que alguém está me ouvindo. Mesmo que só uma pessoa. Eu preciso de comentários como o que citei acima pra reafirmar o sentido da minha "validade" nesse mundo. E eu, tenho sim, muito pra falar. Sendo da coisa, no meu critério, mais relevante, ou da coisa, no meu critério, mais irrelevante.

Aqui, como eu pus na minha pequena descrição no sidebar, é onde eu derramo tudo o que está dentro de mim e que eu não consigo botar pra fora. Aqui é uma bagunça. Como eu sou. Como pessoas que acham que têm muito pra dizer são.
Eu, pessoalmente, acho que todo mundo tem muito pra falar. Cada um é um universo. Como Locke (um filósofo inglês, pra quem não conhece) falou, somos uma tábula rasa, ou uma página em branco, que a experiência vai preenchendo. Pensando assim, cada pessoa tem muito pra dizer, baseado em sua construção de mundo pelas suas experiências, mas não todas têm a necessidade de dizer. Isso tem a ver com muitas coisas. Por exemplo, não temos mais aquele amparo interior que nos fazia procurar o "porto seguro" em nós mesmos, na nossa própria essência. Somos muito dependentes do olhar do outro, e isso nos faz querer falar pela necessidade de buscar alguém que nos compreenda, alguém que concorde com a gente.

Não é todo mundo que sai por ai falando de suas divagações. E por muito tempo, eu achei que esta era uma posição egoísta, afinal, com o pensamento do outro, podemos aprender muito. Hoje, eu não sei se penso assim. Há muitas forças que agem. Minha irmã mais velha, por exemplo, não fala muito, porque acha que não têm nada de importante ou novo pra falar. Eu também não acho que eu tenha nada de novo pra falar, mas desconsidero esse pessimismo de achar que o que vem do outro ou de nós mesmos não é importante. Eu sempre me surpreendo ao receber comentários positivos aqui. E normalmente, eles vêm nos posts que eu mais fico insegura em publicar.

Novamente, não sei se esse post fez sentido. Mais um problema em ter muito pra dizer é que é necessário saber como organizar essas ideias. Eu nunca consigo acompanhar minimamente bem o que eu penso enquanto escrevo, mas vir aqui e tentar, me faz sentir menos prisioneira de mim mesma.


*A imagem que usei pra ilustrar o post, é de um filme chamado "Becoming Jane" que seria quase uma biografia amorosa da Jane Austen. Recomendo fortemente!*

31 de maio de 2017

Uma carta de agradecimento esquisita e envergonhada // 12 cartas em 12 meses

Olá, seres humanos! Como vai a vida de vocês? Eu não sei direito como vai a minha, na verdade. Mas estou bem ocupada. Amanhã terei uma prova meio preocupante e o resto da semana estarei atolada em coisas pra fazer e eventos pra comparecer(achei isso tão chique hahaha mas na verdade, preferia estar belíssima em casa e tendo tempo pra ver Netflix). Não quis de jeito nenhum atrasar o post do projeto, mas infelizmente eu vou parar de postar na mesma frequência que eu posto nas férias, por exemplo. Vai ter um post semanal, com certeza, e os outros a gente se esforça pra ter ~oremos~ Vocês sabem que não sou de colocar qualquer coisa aqui, eu tenho que querer e ter algo pra falar. Mas enfim, estou feliz de não atrasar o projeto, pelo menos isso!
  • Maio: Uma carta para nunca ser enviada.

Olá irmã,
Você provavelmente nunca vai ler essa carta. Ela vai se perder no meio de diversos posts e eu nunca vou mostrá-la a você, porque sou a pessoa mais covarde do mundo pra falar em amor. Você também é. Mas eu entendo, e te admiro muito por não ter vergonha disso, apesar de que não sei se isso lhe é tóxico ou não. Mas não é sobre amor (não especificamente) que quero falar e nem sobre as diversas coisas que admiro em você. Essa é uma carta de gratidão. Num mundo ideal eu lhe falaria tudo isso, mas como eu me conheço bem, eu sei que essa informação não vai chegar à você por mim, mas espero que você saiba.
Quando eu tinha sete, oito anos, você começou a trazer livros pra mim da biblioteca da sua escola. Me lembro de todos eles, inclusive dos que você trazia pra si mesma, maioria de mitologia grega ou do seu tão amado Machado de Assis. Um desses dias, foi muito marcante pra mim. Você estudava à noite e me disse antes de sair que me faria uma surpresa. Eu passei as quatro horas de sua ausência impaciente, andando de um lado pra outro na casa, sem tirar os olhos da porta. Quando você chegou, trazia três livros: A Normalista, o seu livro, A Casa da Madrinha, o livro da minha outra irmã, e finalmente minha surpresa, O Máscara de Ferro de Alexandre Dumas! Eu fiquei tão animada que quis começar a ler o livro no mesmo momento! Mainha tirou o livro das minhas mãos, guardou-o na estante e disse que eu só poderia ler pela manhã. E você sabe o quanto foi difícil pra mim dormir naquela noite! Levantei tantas vezes só pra olhar o livro que mainha quase desiste de me fazer dormir! Mas enfim, a manhã chegou, e eu agradeço muito a você por ter me apresentado às estórias que mudaram a minha vida. Sem você, eu não sei se seria leitora hoje. E se eu não fosse leitora, eu não sei quem eu seria.
Foi você quem comprou o nosso primeiro DVD de O Fantasma da Ópera e quem achou o primeiro exemplar do livro. Se você não amasse o menino Assis, eu possivelmente não teria lido (e amado) Dom Casmurro tão cedo. Você quem me ensinou a amar bibliotecas e depois me implorou pra te levar na Bienal comigo quando eu virei mediadora da biblioteca da escola (e eu nunca negaria), sem seu amor pela escrita, talvez eu não escrevesse, foi você quem me deu essa parte que me transformou e transforma até hoje. E eu não sei se um dia eu posso te dar tanto. 
Você ainda me leva mais pra dentro desse mundo, e agora que é professora de Literatura, me enche de orgulho por estar fazendo com diversas crianças, o que você fez comigo e com Thâmara*.
No próximo aniversário, você vai me perguntar o que eu vou querer, e eu vou pensar que você já me deu o melhor presente, mas não vou te dizer isso, infelizmente.
Você vive se achando pequena, mas quando eu era criança, você me parecia gigante. Hoje, adulta, eu percebo que você não parece, você é. Um dia, você vai perceber isso também.
Obrigada infinitamente, 
Thainara (sua irmã mais irritante hahaha)

*Thâmara é minha irmã gêmea

23 de maio de 2017

Mais um sobre gerascofobia e Laggies

Esse post foi escrito na noite do dia dezesseis de maio de dois mil e dezessete. Uma semana atrás. Mas eu não tinha certeza se publicava ou não. Enfim, publiquei.Resultado de imagem para laggies rotten tomatoes

Então há duas coisas nesse post que me assustam muito. Crescer e procurar bons filmes no catálogo da Netflix. Talvez, esses sejam medos comuns, ou talvez sejam coisas peculiares sobre mim.

Hoje eu faltei aula porque acordei com crise de garganta. Faltar aula pra mim, é muito mais do que deveria ser. Minha mãe me pergunta o dia todo como eu estou, meu pai me faz chás estranhos, minha irmã mais velha fica mais tempo comigo. Faltar aula é a minha saída quando eu estou me sentindo adulta demais. É só um dia em que eu finjo que posso fugir das minhas responsabilidades e ficar em casa sendo mimada e tratada como criança pela minha família. Eu leio o dia todo e assisto filmes. Eu não faço nada do que deveria fazer e isso me faz muito feliz. Hoje, como estava combinado entre eu e o cosmos, eu deveria ver filmes. Então eu enfrentei meu medo de passar duas horas floating no catálogo de filmes e abri o Netflix. Em dias que eu estou bancando a menina de 8 anos em vez da de 18, é regra que eu não posso assistir nenhum filme "cabeça". Nada de dramas, nem ficção científica, nem documentários, nem filmes sobre política e muito menos comédias inteligentes. De modo que fui direto para a sessão de comédias românticas bobas (nem todas são bobas, como vocês sabem).
E, como uma coisa do destino, lá estava um filme da Keira Knightley que eu ainda não tinha assistido. E aqui vai a maior surpresa! Era sobre uma mulher com medo de crescer, assim. como. eu.

Agora, eu vou tentar fazer uma resenha.

O filme se chama Laggies (Encalhados) e é de 2014. Tem a Keira, a Chloë Grace Moretz e o Sam Rockwell. Nas palavras do cara que faz sinopses pra a Netflix, "Megan tem 28 anos e muito medo de envelhecer. Ela conta ao namorado que vai a um seminário, de fato, está curtindo a vida com uma adolescente." E sim, essa é basicamente a coisa toda. Megan tem um namorado esquisito desde o Ensino Médio. Ele é fotografo e ela já tem mestrado e tudo, mas não é realmente nada. Eles estão dentro de um grupo de amigos (deveras cabuloso, inclusive) desde a adolescência. Os dois parecem estar presos ao passado, se fizermos uma análise mais profunda. Até que um dia, Megan é pedida em casamento por esse namorado estranho, surta e foge. A partir daí, eu já estava imaginando se eu não tinha sido assistida a minha vida inteira pela diretora, porque Megan parece muito mais comigo do que eu gostaria. Voltando, Megan conhece uma adolescente, elas ficam amigas (pra resumir MUITO) e ela acaba dizendo ao namorado que vai pra um seminário antes de se casarem, mas na verdade, vai passar uma semana na casa da nova amiga adolescente. 
A personagem da Chloë, Annika, também me lembrou muito eu mesma. Ela tem medo de relacionamentos e não consegue ter nenhum porque está sempre pensando no futuro, como se ela pudesse, sei lá, prever que não ia dar certo. Ou que talvez ela devesse esperar por outra coisa.
Eu li por ai que era patético que a Keira e a Chloë estivessem nessa comediazinha. "A moça que fez a Elizabeth em Orgulho e Preconceito atuar nesse filme, é simplesmente patético!" Como se Hollywood fosse dar o privilégio de escolha pra a Keira! Como se escolher só fazer filme de clássicos ingleses fosse torná-la hit! Mas de qualquer forma, eu não achei o filme patético coisa nenhuma. Tem comédia, é romântico, o que já cumpre com a promessa toda. E além disso, se você prestar muito atenção, ou estiver num dia sensível, vai perceber a profundidade da coisa. Eu não sei se a Megan supera ou não o negócio da gerascofobia. Também não sei se a Annika perde o medo de relacionamentos ou se ela chega em casa e não consegue dormir pensando em como namorar alguém é estranho. Não dá pra saber, porque é só um filme de quase duas horas. Mas dá pra a gente pensar um bocado. Tem uma cena em que a Megan diz "Você não pode deixar de lado o que quer por um futuro imaginário." E isso sintetiza absolutamente tudo sobre o filme. Era também o que eu precisava pra hoje.

Não, acho que isso não pode ser chamado de resenha.

Pra vocês que talvez esperassem uma resenha, bem, as atuações são boas(nada de muito especial é exigido dos atores, anyway), fotografia nem tanto, trilha sonora clichê. Mesmo assim, a diretora, Lynn Shelton, parece ser bem empática com a situação. E tem 64% no Rotten Tomatoes. Eu recomendo.

Enfim, acho que estou pronta pra voltar pra as minhas responsabilidades amanhã. E quem sabe, parar de imaginar tanto o futuro e, finalmente, entender que o medo de crescer só me faz perder o que eu não quero perder afinal, minha juventude.

18 de maio de 2017

Agenda dos próximos meses

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Dezoito de maio de dois mil e dezessete.
1. Ler livros que eu quero ler, só porque eu quero ler. Às vezes eu quero ler sobre São Francisco de Assis, mas "não posso, porque sou agnóstica". São Francisco foi um cara bacana demais. Corajoso demais. Largou tudo pra viver como queria e aplaudir o sol. Esse leria o que quisesse, não seria covarde como eu. E não é só crença ou descrença que tá me paralisando, mas descobri que estou sendo contaminada pelo vírus do pseudo-cult da literatura que eu tanto abominei minha vida inteira! Esses dias eu senti vontade de ler Tempest da Julie Cross, um livro que comprei no meu aniversário de 16 anos e que tenho aqui há muito tempo e nunca li. Mas daí, antes de tomá-lo para ler, pensei que ele era idiota demais e que eu não deveria estar lendo Y.A. agora que já tenho 18 anos. Ai eu peguei um livro da Jane Austen, que eu amo, mas não deveria ser obrigação e nem deveria estar lendo porque é cult mas porque eu quero ler. Foi ai que eu percebi que alguma coisa estava errada. Medo de a minha estante virar uma perfeita caricatura de um professor chato com um cigarro na mão.
Quando eu era mais nova, tinha Alexandre Dumas e Pedro Bandeira na minha bolsa! Um perfeito equilíbrio hahaha
2. Voltar a ver minhas tão amadas comédias românticas sem ter vergonha disso. Esses dias, uma professora minha brincou com uma das alunas que aparentemente é muito intelectual. "Você conhece as Kardashians ou só lê Nietzche?", ela falou. Ai eu lembrei que não via as Kardashians há anos(isso foi uma hipérbole, folks), e que essas coisas meio bobas do mundo pop me ajudam tanto quanto as coisas que as pessoas consideram cultas. Nesse post, eu falo sobre as músicas bregas que me inspiram mais do que os discursos do Malcom X ou as obras do Andy Warhol. Mas ai eu comecei a faculdade e parei de escutá-las, de ver filmes bobos, de assistir programas de fofocas... Saudades de maratonar todos os filmes românticos da Meg Ryan!
Imagem relacionada
3. Parar de procrastinar pra escrever só porque eu não sou talentosa como tal pessoa ou porque "aquela outra escreve tão bem que eu nunca conseguiria chegar aos pés". Eu não preciso chegar aos pés de ninguém, eu só preciso escrever. Ninguém precisa me ler mesmo, não é como se eu fosse o Stephen King, então pra que essa paranoia toda?
4. Cuidar mais de mim. Eu sempre falei que quando tivesse minha própria casa, eu não limparia ela, porque eu odeio limpar. Eu não a organizaria, porque eu sou bagunçada mesmo. E agora eu percebo que eu sempre tive minha casa e realmente não a organizei. O problema é que só eu vivo aqui e ninguém me visita nem nada, se essa casa desabar, só eu vou me embora junto. E eu sou nova demais pra ir.
5. Estudar apenas por estudar. Eu me interesso por tantas coisas, mas sempre acabo achando que vai ser inútil, que eu perco tempo lendo sobre, que eu poderia usar aquele espacinho no meu cérebro pra algo que eu fosse ser avaliada por. Mas ai eu reclamo de quem faz as coisas automaticamente quando eu acabo sendo essas pessoas. No início do ano, eu comecei a me interessar por Empirismo. Então eu li um monte e depois achei que era um conhecimento sem propósito, uma vez que eu não o usaria (pobre de mim, menina tola). Mas um dia desses que fui visitar minha escola de Ensino Médio, uma amiga de uma amiga perguntou à nossa antiga professora de sociologia pra quê aprender genética, se a gente não ia usar. Com toda serenidade que a professora não tem, ela respondeu que "É muita burrice achar que a gente só tem que saber de alguma coisa se for precisar usá-la praticamente". E com isso, eu voltei a ler Empirismo e também levei um ótimo, e necessário, tapa na cara.
6. Autorrealização. Porque isso nunca sai da minha agenda, mas um dia eu espero não precisar.

15 de maio de 2017

Espelho, espelho meu... #VNES


Acordar e encarar a vida nem sempre é tão simples. E lá estava ele, meu primeiro obstáculo, o espelho, como era triste me olhar todos os dias e não me aceitar como eu era. Depois era a hora de colocar a farda, aquela calça preta que nunca ficava boa em mim, me sentia um balão inflável, então olhava para meu rosto e via as olheiras funda, mostrando o quão pouco eu tinha dormido noite passada, me olhava procurando onde eu estava e porque tinha me perdido assim.

Ahh, como aqueles minutos na frente do espelho me destruía e continuava a me perguntar por que não ser como as meninas da minha escola. O tempo foi passando e eu não conseguia me olhar no espelho. Me achava gorda, feia, mas eu nunca conseguia enxergar o que eu realmente era. E foi assim que passei a parar de comer e quando sentia fome comia bem pouco e vomitava tudo logo após. Ninguém percebia o que estava acontecendo comigo, me isolei e cada vez me encontrava mais sozinha e sem enxergar quem eu era, me perdia a cada dia e parecia que meu mundo estava se fechando contra mim.

E foi aí que as pessoas e a minha família começaram a notar que eu passava o dia todo sem comer e o quanto eu estava fraca. Minha mente me punia sempre que comia e depois eu ia correndo para o banheiro vomitar tudo, até que desenvolvi anemia. Passei a me sentir sonolenta, sem forças e muitas vezes ficava tonta, aí veio o primeiro desmaio na escola...aquele dia foi horrível lembro das pessoas em minha volta ao acordar, com cara de assustadas e se perguntavam o que estava acontecendo comigo e eu só queria chorar, porque eu sabia o que estava acontecendo.

Mas o que eu ia fazer pra mudar? Eu não sabia e só estava afundando cada vez mais. O tempo parecia ter parado e eu nem sabia quem era eu mais, até que resolvi me aceitar porque ser eu e me sentir bem comigo mesmo foi umas das melhores coisas que aconteceram. A minha felicidade voltou e meu sorriso ao olhar no espelho era de amor próprio, era a melhor coisa que eu sentia me amar, me amar... O amor tão profundo e mais sincero por mim mesma.
Texto de Mariane Xavier

O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

Blogs participantes:

              


Conheça o projeto: vcnaoestassozinho.blogspot.com.br

13 de maio de 2017

Depois de um dia esquisito, mais um pra se arrepender de ter postado


Eu odiava que você esperasse algo de mim. Achava que era injusto que você quisesse que eu fosse isso ou aquilo. Eu queria que você me aceitasse do jeito que eu era, que me compreendesse mais. Ou que se não conseguisse me compreender, deixasse por isso mesmo.
Eu odiava que você esperasse algo de mim. Mas eu esperava tanto de você.
Mesmo que eu seja agnóstica; que eu seja bagunçada; que durma tarde demais e acorde mais tarde ainda; que eu faça uma faculdade que a senhora não gosta; que eu queira escrever ficção e não prescrição de remédios; que eu leia demais e estrague minha vista; que eu ande com esses "comunistas vagabundos"; que eu seja viciada em miojo; que eu só use preto; que eu odeie sutiãs mas "tem que usar, menina!"; que eu deixe os gatos dormirem na minha cama; que eu lave o cabelo à noite; que eu só assista "essas coisas de gente gótico"; que eu desate a falar umas horas e em outras eu nem queira dar bom dia; mesmo com tudo isso, você espera algo de mim. Obrigada, porque eu não sei se teria essa perseverança com outra pessoa.

E valeu por pintar meu quarto de amarelo, numa tentativa um tanto ridícula de me fazer não esquecer de você. Eu não esqueceria, mas obrigada por tentar.

Eu não entendo por que a senhora tem um filho bem sucedido, uma filha religiosa e uma filha organizada, mas ainda assim, tenta por mim. Acho que nem a senhora entende.

8 de maio de 2017

Checked #VNES

Mais um post do projeto #VocêNãoEstáSozinho! Sorry folks, eu deveria ter postado algo entre um #VNES e o outro, mas sabe como é, agora que eu sou universitária... cof cof


Mochila. Sapatos. Chaves. Carteira. Garrafinha de água. Checked. 13:00. 
Saio do quarto e fecho a porta forçando um pouco a pobre. Depois da última chuva, parece que ela estufou de um jeito que quase não fecha. Me olho no espelho e aproveito para dar uma última checagem. 
Mochila. Sapatos. Chaves. Carteira. Garrafinha de água. Checked. 13:05. 
Vou até a cozinha e observo o ambiente. 
Torneira fechada. Geladeira fechada. Fogão desligado. Porta do quintal devidamente trancada. Checked. 
Sorrio satisfeita e desligo as luzes. Passo voando pelo corredor imaginando se o ônibus passaria mais cedo e eu ficaria plantada naquele Sol de 70º graus. 13:08.
Saio de casa e coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. A chave não gira mais. Está trancada. Mexo e simulo uma invasão. A porta não abre de jeito nenhum. Sorrio e saio andando pelo meio da rua deserta. Mas será que eu não deixei o fogão ligado mesmo? Eu não tenho certeza se fiz isso quando terminei de esquentar minha lasanha de ontem. Dou meia volta para casa e coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. Abriu. Entro e empurro a porta atrás de mim sem trancá-la. Saio correndo pelo meio da casa e ao chegar na cozinha presencio o mesmo cenário de 5 minutos atrás plenamente deserto. 
Torneira fechada. Geladeira fechada. Fogão desligado. Porta do quintal devidamente trancada. Checked. 
Aff. Desliguei as luzes e enquanto passei pelo espelho prendi a respiração. Não preciso checar novamente. NÃO ESTOU ESQUECENDO NADA! 
Ergo a cabeça e saio de casa. Coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. Trancou. Certeza? Giro a maçaneta sem a chave na fechadura e a porta não abre. 
Guardo a chave no bolso direito e puxo o celular do bolso. 13:14. MERDA! 
Seguro minha mochila e corro sem prestar atenção nos carros. Viro três esquinas correndo e ignorando olhares. Quando chego na Avenida, vejo o lindo ônibus azul passar do outro lado. Não. Pode. Ser. Passei as mãos no rosto e respirei fundo. 
Tudo bem. Pego o próximo. Sem problemas. 
Espero o sinal fechar e atravesso na frente de uma linda Range Rover preta. Meu sonho de consumo. Claro que sei que pra isso preciso ser rica. E pra ser rica preciso ter um bom emprego. E pra ter um bom emprego preciso ir bem na faculdade. E pra ir bem na faculdade preciso... preciso...! Eu preciso ir bem na faculdade! Caso não, não consigo um emprego, nem dinheiro, nem uma Range Rover. Sentei no banquinho da parada de ônibus já arrasada. Eu não conseguiria um emprego! 
Um outro ônibus vem em direção ao ponto. Repito o destino cinco vezes na minha cabeça. Não é o meu. 
Olho para o chão percebendo que estou sozinha naquele lado da Avenida. Qualquer pessoa poderia chegar aqui. Uma moça grávida. Um moço querendo voltar pra casa depois de um longo dia de trabalho. E também pode vir um moço com má intenções. Ele sentaria ao meu lado como se fosse o moço querendo voltar pra casa, mas ele não esperaria o ônibus. Ele anunciaria um assalto. Eu reagiria? Não! Não dá pra reagir a um assalto. Eu correria? Não, eu iria morrer se me jogasse nessa Avenida. Eu daria meu celular. Mas eu vou ficar sem? Eu não tenho como comprar outro. Não tenho emprego! 
Olho ao redor. Um moço passa por mim e eu prendo a respiração sentindo meu coração disparar. Ele continua andando e eu solto o ar que prendia. Obrigada, Deus. 
Mais um ônibus azul vem em minha direção. O meu destino estava estampado em letras enormes. Li mais três vezes para ter certeza de que era o meu mesmo. Levantei e observei o banco. Não deixei nada cair, deixei? Ele já estava perto quando corri para acenar. Parou. Entrei no ônibus e passei pela catraca. 
Sentei em um banco qualquer e relaxei. Sem roubos hoje. Onde está minha chave? Meu coração disparou de novo. Será que deixei cair no ponto de ônibus? Abri minha bolsa desesperada e vi o molho reluzente se mexer dentro dela. Soltei o ar que prendia, como sempre, aliviada. Olhei pela janela as plantações passarem rápido por mim.e tentei afastar imagens de um possível acidente de ônibus comigo dentro. Para! 
EU. 
ESTOU. 
SEGURA. 
Sigo repetindo as mesmas palavras mil vezes na minha cabeça. Vejo pela visão periférica alguém sentar ao meu lado. É uma colega da faculdade. Ela pergunta se eu fiz o trabalho. 
Meu coração pula do peito disparando, sim. Eu coloquei o trabalho na bolsa?
Texto de: Clarissa Assis
O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

Blogs participantes:

              
Conheça o projeto: vcnaoestassozinho.blogspot.com.br
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