8 de março de 2017

Hipocrisia nossa de cada dia


Levanto da cama atrasada, como sempre. Nem vejo minha mãe sair pra o trabalho, mas já sinto o cheiro do café da manhã que ela preparou pra os seis membros da família.
Nem dá tempo de comer e me sinto mal por isso. Gostaria de ter acordado um pouco mais cedo para agradece-la, porque sei que ninguém o fez.
Troco de roupa apressada e pego minha bolsa, estou prestes a sair de casa quando percebo que minha irmã ainda está dormindo. Perdeu a hora. Não dá mais tempo de se arrumar, então vou ter que ir para o ponto de ônibus sozinha. Minhas mãos suam. Olho de um lado pra o outro na rua, a procura de alguma outra mulher à espera ou de alguém conhecido. Não há. Espero impaciente, pensando em todas as estratégias de fuga no caso de algum sufoco. Estou prestes a voltar pra casa, quando o ônibus finalmente chega. Está lotado. Suspiro, pago a cobradora e entro. Não há lugar nem pra respirar.
Coloco a bolsa no chão para que mais um passageiro passe pela catraca. Então me sinto violada pelo mesmo cara que ajudei. Eu percebo que ele está se aproveitando do pouco espaço e rezo para que o ônibus esvazie pelo menos um pouquinho. Uma garota ao meu lado observa o meu desconforto e me olha como quem diz "Ah, já estou acostumada!".
Finalmente o ônibus chega no meu ponto. Desço aliviada e vou atravessando a rua. Nesse meio tempo ouço um homem montado numa moto buzinar pra mim, olho para ele afim de saber se o conheço, mas não. Ele acha que estou "dando moral" e me chama de gostosa. Baixo a cabeça e entro na escola correndo.
Então um dos meus colegas de classe me recebe na porta com um sorriso e uma flor. "Feliz dia da mulher", ele diz. Antes que eu possa agradece-lo, percebo que ele não olha para o meu rosto.
Hoje é um dia como qualquer outro.

20 comentários:

  1. É triste mas infelizmente é a realidade. Há ainda poucos homens, homens com H grande, que encaram esta data com extrema importância mas mais são aqueles que acham que tem o direito de gozar com este dia quando eles não seriam nada sem as mulheres!
    Tens imenso talento para a escrita linda, gostei realmente do texto.

    Beijinhos, Hellen ❤
    http://instantesimprovaveis.blogspot.pt

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    1. Há poucas pessoas em geral que não entendem a simbologia do 8 de março. Isso não é pra ser o que a corrida pelo Capital transformou, é um dia pra nós lembrarmos da nossa resistência e nos motivarmos pra continuar!
      Obrigada!!

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  2. Olá Thai =)
    Adorei a forma de expressão do texto!
    Já estou seguindo o blog e gostaria de desejar feliz dia da mulher (atrasado mas valendo ainda =))
    Beijinhos ❤
    Blog Ale Canofre
    YouTube

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  3. Maravilhoso o seu texto! Me identifiquei muito com a personagem quando eu fazia faculdade. Eu pegava ônibus lotado cedinho e a única parte diferente é que meu pai ficava comigo no ponto até o ônibus chegar, mas quando eu ia sozinha tbm sempre pensava em vários planos de fuga.
    Realmente, dia 08 de março é uma total hipocrsia com as mulheres.
    Primeira vez que venho no seu blog. Estou seguindo aqui ^^'
    Beijo, www.apenasleiteepimenta.com.br ~Neste mês tem post todo dia no Blog~
    Participe do Concurso e Concorra a um Mídia Kit

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    1. Muito obrigada!
      Eu faço faculdade agora e estou passando por isso :c

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  4. Infelizmente a nossa realidade diária. Dia a dia comum, a gente nem dá mais bola pros acontecimentos :/ sei bem como é andar em ruas vazias e pegar ônibus lotados, mas felizmente nunca passei por nada assim, exceto as buzinas na rua :/

    Beijos!
    http://tipsnconfessions.blogspot.com

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  5. Oi, flor.
    Bem realista seu texto - infelizmente.
    Adorei!!

    Beijinhos :*
    Sankas Books

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  6. Nossa, verdade atrás de verdade. Infelizmente é a realidade e, por mais que se lute contra esse desconforto todo, é impossível não andar sozinha na rua e pensar "e se algo acontecer?".
    Gostei do seu texto.

    Beijos.

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    1. Infelizmente o patriarcado não deixa!
      Obrigada c:

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  7. Eu não sei o que comentar Thai. E estou sendo sincera te dizendo isso. É só que... Passar por isso todos os dias dói, mas ver retratado assim, escancarado parece que rasga a pele por dentro, sabe? Enfim, triste saber que em qualquer lugar, sempre passaremos por isso. O desconforto e a insegurança que se é sair de casa sem saber se nossa dignidade retornará intocada até o fim do dia. Porque a sociedade precisa ser tão injusta?

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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    1. Eu acho que esse medo insano e incessante todos os dias é desumano, ao ponto de anular qualquer dignidade às mulheres. A gente parece que tá sempre fugindo e isso é tão contra todos os direitos fundamentais dos seres humanos!

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  8. Super verdade, Thai. Acontece sempre e é foda! Seu textinho deu um aperto no coração viu? Tu escreve muito bem, moça <3

    xox
    Próxima Primavera

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  9. E vamos vivendo, né, Thainara? Mesmo com todas as dificuldades que encontramos em ser mulher, mesmo com todo o nosso desejo de respeito (pelo menos respeito).

    Ainda esses dias, saí para uma caminhada com uma amiga e sofremos um assédio muito chato (que nos assustou, na verdade, posto que fomos praticamente perseguidas num lugar um tanto quanto deserto). Isso nos fez pensar como é horrível que, para nos sentirmos seguras em relação a certos homens, precisemos, na maioria das vezes, de outros homens para nos fazer companhia. É quase como se fôssemos propriedade masculina; se não estamos acompanhadas, estamos "querendo algo".

    Enfim, ótimo texto! Tenha um bom restinho de domingo ♥
    O Único Jeito

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    1. Nós resistimos, Larissa!
      Nossa, muito tenso isso. Já fui perseguida também algumas vezes e a sensação é aterradora de tão horrível. O patriarcado nega a dignidade de qualquer mulher, somos cada vez mais coisificadas por esse sistema horroroso.
      Obrigada ♥

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  10. Caramba que texto! Fiquei arrepiada! Realmente é basicamente isso bem resumido do que passamos na grande maioria dos dias, infelizmente. Uma vez voltando do curso à noite, eu me senti tão desconfortável no ônibus, tava vazio e quando eu desci, um cara também desceu. Só que ele foi na direção contrária a minha, mas ainda sim, sentia que deveria correr o mais rápido possível pra minha casa. Minha vó me buscou na metade do caminho, e obviamente ela não corre como eu, apressei ela o quanto pude, abri o portão e entrei correndo. Enquanto ela fechava o portão, quem eu vi passando pela minha rua como se estivesse procurando algo? O cara do ônibus. Fiquei com muito medo naquele dia. O pessoal ainda fala "ah por que usa roupa curta, por isso, acontece isso?" mas, não! Eu tava de calça jeans e uma blusa de meia manga, e mesmo assim aconteceu, como outros assédios que já aconteceram. Então, não é e nunca foi a roupa.
    No ônibus é algo bem constrangedor, sentir que alguns caras querem aproveitar cada segundo dele lotado pra fazer coisas horríveis. Fora outra vez que eu estava sentada, dormindo e acordei com um cidadão esfregando seu membro no meu ombro. Péssimo. Enfim. Cada uma de nós carregamos inúmeras histórias, que gostaríamos de não ter.

    beijos,
    deloucostodossomosumpouco.blogspot.com.br

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    1. Pois é, é uma realidade horrenda, mas que precisa muito ser discutida. É triste o que aconteceu com você, Amanda, e já aconteceu de outras formas comigo e com muitas meninas que conheço. É tenso achar que nunca vai melhorar e que nunca vai conseguir fazer exercício pleno do direito de ir e vir em nenhum lugar.
      É de dar desesperança, mas resistimos!

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