19 de abril de 2017

Eu não sou sua cool girl!


Por muito tempo da minha vida, eu me perguntei por que todas as minhas amigas tinham namoradinhos ou paqueras e eu não. Sempre tentei não pensar nos motivos disso, porque me incomodava muito. Mas às vezes eu me perguntava o que tinha de errado comigo! Eu sou branca, tenho corpo padrão, meu cabelo se encaixa na categoria "ainda bem que é cacheado e não ruim!" (Categoria que podemos nomear "a mulata" dos cabelos). Meu corpo estava nas revistas, meu cabelo estava na TV! Mas por que os meninos se interessavam por todas as garotas à minha volta, menos eu?

E então a mídia me deu a resposta.

Sabe aquela menina com personalidade "masculina"? Uma menina que está dentro dos padrões de beleza, mas que pouco se esforça pra ser bonita ou não é tão vaidosa?  Aquela que faz piada escrachada, que fala palavrão? A liberal nos relacionamentos, que pega um monte e não fica com nenhum?  Aquela que é "da galera"?  E que geralmente quando varia um pouco - mostra aspectos considerados femininos (como tantas vezes aconteceu comigo) é fortemente questionada?

Ela era eu. Eu sempre estava nas rodinhas com os meninos, eu tinha facilidade de me relacionar com eles. Eles não tinham vergonha de falar nada na minha frente, desde a piadinha sobre pênis à ficada massa com a gostosa no sábado. Eu era a menina que não tinha frescuras, que não usava maquiagem, que não gostava de rosinha, que escutava "música de homem", que não lia livro de "mulherzinha", que via os filmes legais, que era "magra de ruim". Eu era um dos caras.
Ou melhor, eu era a "cool girl".

Então se algum deles se interessasse por mim, iria querer o tipo de "relacionamento liberal" que tanto sonhavam. Ou seja, usar a menina e depois dar o fora. Assim, eu não me apaixonava, eu não tinha permissão pra isso. Nem pra esperar que o cara ligasse pra mim no dia depois do primeiro encontro. Eu não podia consumir o que os caras não achassem legal e por Deus, eu não podia de forma nenhuma ser feminista! Eu estava lá para entretenimento deles e só.


O arquétipo da cool girl (garota legal em tradução literal) é bastante popular na Literatura. Geralmente é a menina que apresenta a maioria das características que introduzi acima e que despreza todas as mulheres com expressão mais feminina. Até mesmo essas novas personagens que estão surgindo, de personalidade forte e que são mostradas como guerreiras, atendem à certas características da cool girl. É algo que está tão por dentro das mídias contemporâneas que temos dificuldade de reconhecer, principalmente porque muitas vezes, essas "cool girls" são escritas por mulheres.
Na televisão e no cinema, esse arquétipo aparece de muitas maneiras. A Sam do iCarly é a típica cool girl. Não precisa nem de muita análise. Ela é praticamente um personagem masculino e quando se apaixona, todos ficam super surpresos! No seriado Sam & Cat o arquétipo é ainda mais visível, uma vez que há um contraste enorme entre a expressão de gênero totalmente masculinizada da Sam com a fofura e,  não por acaso,  burrice da roommate Cat. 
Em Gilmore Girls também somos capazes de enxergar esse trope. É muito perceptível no episódio em que a Lane Kim, amiga de uma das personagens principais, Rory Gilmore, vira líder de torcida e tem vergonha disso. Lane e Rory são inteligentes e “sem frescura", raramente estão dentro da expectativa feminina(como quando Rory aceita ser debutante em um baile, mas apenas pra agradar a vó -sqn) e sempre estão zoando as meninas que são diferentes, como a Madeline e a Louise.

A cool girl é um desserviço às mulheres e à luta feminista.
É um arquétipo machista que deslegitima as mulheres e as colocam em quadrados mais aceitáveis e menos aceitáveis. Além disso, perpetua a ideia de que há características próprias de homens e mulheres como se isso fosse natural e não construção social.
Humanos são humanos e têm características humanas.

Tudo bem gostar de livros de romance! Tudo bem usar rosa! Tudo bem gostar de maquiagem!
O que não está tudo bem é tornar a mulher um objeto de entretenimento. Ser diferente é legal, mas tentar ser diferente pra agradar homem é um investimento sem qualquer retorno.

10 comentários:

  1. Esse é um assunto muitooo importante! Sempre paro pra pensar nisso, acho que conheço muitas "cool girls" e são sempre taxadas do mesmo jeito que falou acima. Acho que cada um tem direito de gostar e usar o que quiser, e sem rótulos. Com rótulos ficamos muito limitados. Quando estava na escola também nenhum garotinho queria sair comigo nem nada do tipo, mas eu não era cool girl, era sim bem fechada e séria haha e achavam estranho até quando eu ouvia música! Sim! Imagina a visão que tinham de mim haha Cada um que goste do que quiser e sejamos felizes assim, sem julgamento alheio ;)

    Beijinhos
    http://tipsnconfessions.blogspot.com

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    1. Sim! Tudo que é apenas uma coisa, é pouco. Eu já fui muita coisa na escola e minhas amigas também, mas nunca pudemos ser realmente nós mesmas.
      Obrigada :3

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  2. Olá, tudo bem? Eu li sua postagem ontem a noite mas acabei saindo sem comentar e me arrependi muito, afinal, eu amei ler essa postagem e tinha que deixar minha opinião aqui para você. Ah, queria dizer que estou seguindo o blog e espero por mais atualizações o quanto antes, afinal, você escreve super bem!

    Eu também sempre me perguntei o motivo de tantas pessoas terem namoradinhos, paquera e romances e eu sempre ser esquecida. Mas eu nunca fui muito vaidosa, não gostava muito de me arrumar como tantas e tantas amigas minhas e vivia sempre "deixada" pra lá.

    Eu sou uma cool girl, eu me visto com o que me deixa bem e confortável, sempre fui assim, meia deixada, nunca me importei de comer na frente de determinada pessoas como muitas meninas fazem por vergonha. Nunca ao menos liguei se meu cabelo estivesse bagunçado ao acordar ou coisas do tipo.

    Mulheres que são objetos da mídia é preocupante e eu fico feliz por ser simplesmente eu mesma!

    Afogando-se na chama ☺

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    1. Oi! Muita obrigada! :3
      Se você se sente bem sendo assim então está tudo bem. Nada preciaa mudar em você, mas na cabeça dos meninos.

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  3. Oi, oi!
    Gostei muito do post, faz muito sentido tudo que você falou. Acho que é importante ser quem você gosta de ser e não o que agrada aos outros.
    Beijos!
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  4. É bem assim, Thai. Me identifiquei muito com o que você falou. Afinal, nunca fui dentro dos padrões da sociedade e acho que nunca vou ser. Isso não me deixa menos feminina, mas confesso que quando era mais nova tinha medo de me chamarem de menina macho só porque eu não era delicadinha e não ligava pra essas coisas. Até hoje sou meio foda-se pra roupa mesmo gostando de me sentir bem bonita. A gente tenta né ser fofinha e tals, mas não pelos outros. Pra mim mesma. Ficou contraditório? É que eu não sei explicar kkkkkkkkkkkkk

    Beijo!!
    Próxima Primavera

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    1. Os padrões são ridículos e ilusórios, mas nos paralisam né? Eu tô ligada hahaha também já me senti mal por ser vista sempre como a gêmea desarrumada, mas fia, um dia você, com muito esforço, supera.

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  5. Eu era a cool girl, eu não me esforçava para parecer arrumada, tinha preguiça e quando tentava falando que estava me vestindo mal, estava brega, feia, "não combina com você" então simplesmente não me dava ao trabalho, usava shorts jeans rasgados, camisetas justas e chinelo e pensava que era por isso que não era olhada com desejo pelos garotos, eu era a amiga para falar asneiras e pedir conselho com as meninas, mas não para ser A menina, eu falava palavrão, andava de skate, escutava rap (ainda faço algumas dessas coisas).Eu mudei, às vezes eu gosto de usar rosa, um vestido rodado e um laço no cabelo e as vezes gosto de andar toda de preto, com coturno e uma blusa do RHCP, as pessoas estranham, até mesmo quando eu passei a gostar de moda estranharam pq eu era mt "máscula" para isso. Apesar das mudanças os esteriótipos ainda estão presentes, eu não preciso mudar para me enquadrar e hoje eu sei disso, eu não preciso me limitar, eu posso ser todas em uma só, isso não faz de mim menos ou mais feminina. Mais uma vez o feminismo se faz presente e necessário! Amei o texto <3

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    1. É horrível quando as pessoas nos limitam à tão pouco, não é? Quando a gente é só essa "moleca" que não pode nunca ser de carne e osso.
      Feminismo é necessário sempre <3
      Obrigada!!!

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