21 de agosto de 2017

As Lições de Katherine Watson

"— Arte só é arte até as pessoas certas dizerem que é.

— E quem são essas pessoas?" 
Eu não costumava questionar isso. O que é arte, digo. Mas hoje, depois de uma reflexão da minha amiga na faculdade, eu passei boa parte da noite pensando sobre o assunto. 

Nosso professor de História da Arte exigiu que nós apresentássemos alguma arte nossa no fim desse semestre, já que estaríamos estudando com os alunos de Design. Eu gosto de arte, mas não acho que sou muito boa em fazer a minha própria. Fiquei com medo. Ela, como aluna de Design, me disse "Nós somos designers em formação, não artistas", e isso ficou na minha cabeça. Um semestre atrás, eu decidi que não queria fazer Design, que não me daria bem porque não achava que queria fazer arte, achava que queria falar sobre ela. Ai vem minha amiga e me joga isso.
Voltei pra casa e decidi ver o filme que tanto me falavam, mas que eu sempre procrastinava pra ver. E graças aos deuses eu fiz isso, ótimo timing! Depois dessa pequena historinha sobre como eu decidi ver esse filme, vamos ao post!

Então temos a Julia Roberts interpretando a brilhante professora de História da Arte, Katherine Watson. Não é única estrela de Hollywood nesse filme de 2003 dirigido pelo maravilhoso Mike Newell, há também a Kirsten Dunst, a Maggie Gyllenhaal, a Ginnifer Goodwin e a Topher Grace. Numa sinopse bem simplificada, a Srta. Watson aceita um trabalho na conservadora Universidade de Wellesley para mulheres afim de tentar fazer com que as alunas, que almejam apenas o casamento, comecem a pensar por si mesmas e fazer suas próprias histórias. Óbvio que nem os diretores da Universidade e nem as estudantes sabem disso. Sendo assim, entre meados dos anos 1953 e 1954, a professora causa uma tremenda bagunça na cabeça e na vida das universitárias (Acho que estou ficando melhor nisso, nas sinopses, quero dizer).

Aqui vai mais uma pequena curiosidade sobre a minha vida que se relaciona bem com o filme. Katherine Watson não é casada. Minha professora de matemática do Ensino Médio também não. O fato de Katherine não ser casada, trazia um monte de questionamentos e medos pra as mocinhas da Universidade de Wellesley. Assim como, por incrível que pareça, o "solteirismo" da minha professora, trazia pra as meninas da minha escola até o ano passado e com toda certeza, continua trazendo. Trazia até a mim. Eu nunca quis me casar, e ainda não quero. Quando eu era mais nova, sempre dizia que nunca me casaria, que era independente demais pra isso. Depois, comecei a pensar que não esperaria pelo casamento, mas que se acontecesse, tudo bem, desde que eu tivesse certeza do que queria. Eu não pensava exatamente no acontecimento, mas esperava ter pelo menos a oportunidade de responder a um cara. 

Quando conheci a professora de matemática, fiquei com medo. Ela disse que nunca namorou e nem nada, mas que não sentia falta. As minhas colegas ficavam muitíssimo espantadas, tentavam juntá-la com qualquer professor não casado. "Você mete medo nos meninos, Thainara, vai acabar que nem a professora". Eu sempre respondia com todo orgulho que não me importava, mas eu me importava sim.

"Nem todos os que vagam são sem rumo"

Minhas amigas começaram a namorar. Nós fazíamos festas do pijama e não assistíamos mais filmes de terror, nós pintávamos as unhas e falávamos sobre como elas queriam se casar com os namorados e terem filhos. Como elas pensavam na universidade e nos ansiados trabalhos considerando os futuros maridos primeiro. Fui perguntar a dois desses "futuros maridos" se eles esperavam se casar com elas. Eles riram e disseram que isso estava muito longe ainda. Forcei um pouco mais. Um disse que não, outro disse que não pensava em casamento, que era novo demais pra isso.

O quão assustador é que as meninas de 2016 se pareçam tanto com as de 1950? O quão assustador é que os meninos não pensem em casamento primeiro (e às vezes nem segundo), enquanto isso é óbvio pra a maioria das meninas?

Katherine pergunta em um momento do filme, como os artistas retrarão elas, as meninas dos anos 50, em alguns anos. "As garotas que conseguem passar as camisas dos maridos enquanto estudam ao mesmo tempo"? E como será que nós meninas do Séc. XXI seremos retratadas em alguns anos? "As garotas que conseguem sonhar em ser esposas e militarem em causas feministas ao mesmo tempo"?

"O contexto de onde vemos, afeta o modo como vemos"

Como feminista, gosto de pensar um pouco mais nas nossas opressões invisíveis que naquelas que temos um monte de mulheres incríveis tentando mudar. Gosto de problematizar o que nós consumimos, o lugar que nós ocupamos, o que estamos quase fadadas a pensar. "Família certa, arte certa, pensar certo". É importante que se pense em violências mais visíveis, mas as simbólicas não são menos legítimas. Um filme, um best-seller, uma canção podem sim nos escravizar mais ainda. Arte é um modo de "libertação", mas pode nos aprisionar ao mesmo tempo. A Disney, se é que você considera os seus produtos como arte, está ai pra nos ensinar a pensar desde pequenas que todo relacionamento deve nos levar a uma conclusão oficial. Que os homens babacas podem mudar se formos perseverantes. Que nosso final feliz depende mais deles do que de nós mesmas. Que final feliz tem a ver com o amor que recebemos e não com o que temos por nós. Pois bem, Katherine diz que não. E eu acho que um monte de meninas precisam ouvir isso.

Não existe um papel para o qual nós nascemos. Nós nascemos pra viver e pronto. Precisamos parar de pensar que nós devemos ser isso ou aquilo. Sendo "isso" ser bem-sucedidas nos relacionamentos e "aquilo" bem-sucedidas no que devemos fazer profissionalmente. A gente não deve nada. Aliás, até devemos sim. Como a Srta. Watson recomendaria, devemos ser subversivas, questionadoras e acima de tudo, devemos achar nossas próprias verdades. Ou não. Não conseguimos nem definir o que é arte, imagine verdade! 

"O horizonte é uma linha imaginária que recua quando você se aproxima" 

Como última lição, Katherine me ensinou a desapegar. Isso é outra coisa que nos segura violenta e fortemente. Não deixamos o que nos faz mal ou o que apenas não faz mais sentido ir. A gente sempre acha que vai se arrepender ou que não somos suficientes pra nós mesmas, pra encontrarmos outra coisa ou pessoa que nos faça melhor. Infelizmente esse é um medo que ainda me perseguirá por um tempo, mas enquanto estou inspirada por esse filme, prefiro pensar que a partir de hoje eu vou ser mais "livre". Pelo menos eu vou tentar. 

Pra vocês, minha lição é: Assistam a O Sorriso de Mona Lisa!
Esse filme não é aclamado pela crítica e nem nada e contabiliza uma nota bem ruinzinha no Rotten Tomatoes. Tem sim alguns erros cinematográficos e talvez o roteiro pudesse ter sido melhor. Mas eu não consegui não me apaixonar pelo filme e pela Katherine, e quando uma obra me faz ficar encarando o teto por meia hora, ela merece meu total respeito. O que eu admiro nesse filme são os porquês que ele deixa pelo caminho, apesar de muitos críticos odiarem a ausência de respostas. Como Millôr Fernandes (um dramaturgo, jornalista e humorista brasileiro) fala maravilhosamente: Porquê? é filosofia. Porque é pretensão.

9 de agosto de 2017

Diário de Leitura 002 & Assistidos Recentemente 003 (Juntos sim, porque se juntos já causam...)

Olá pessoas! Faz muito tempo que eu não faço post de lidos e nem assistidos, mas esse mês decidi fazer. Acho que por estar de férias no mês passado, eu acabei tendo mais o que consumir do que quando eu acordo de onze da manhã, vou pra faculdade, volto às 19h e durmo até a madrugada, onde eu revejo Gilmore Girls ou escuto músicas antigas. Infelizmente, esse tempo está chegando de novo. Pra alguns de vocês e pra alguns dos meus amigos já chegou e eu tô meio triste, porque parece que não aproveitei muito. Eu sempre penso assim, não importa o que eu faça. Mas enfim, espero que esse semestre seja melhor do que o anterior. Eu ia até pegar umas eletivas, mas do jeito que tá foda pra se adaptar só com as aulas normais e o grupo de estudos, imagine se eu pegasse mais matérias! Vou esperar esse ano acabar e ver se 2018 vai ser mais de boas. Espero que sim!

Manifesto do Partido Comunista e A Dama das Camélias

Eu li o Manifesto no início do mês, assim que ele chegou da Amazon. É um ótimo livro, mas acho que devo mais à edição que escolhi, que é a 3° da Edipro. Tem não somente o Manifesto, que é bem curtinho, mas documentos históricos, prefácios escritos pelos autores para as edições russas, polonesas, alemãs e italianas de 1848 à 1892 e ainda os estatutos das ligas comunistas. É um livro interessantíssimo que agrada não somente os interessados em entender o marxismo, mas os interessados em História em geral. Como os próprios Marx e Engels falam em um dos prefácios, esse não é um livro pra ser idolatrado, mas é destinado aos proletários do século XIX, sendo assim, nem tudo vai ser atual e muito do que é desatualizado, pode ser adaptado às diversas esferas contextuais de cada leitor. Mas ainda assim, é impressionante como o livro pode ser bastante atemporal e se aplicar a realidades bem diferentes da europeia. Recomendo muito! 
Eu comprei A Dama das Camélias na Amazon Day por três motivos. Primeiro porque eu sou LOUCAMENTE APAIXONADA por Alexandre Dumas (o pai) e nunca na minha vida, li um romance francês que não se tornasse um favorito. Depois, A Dama das Camélias foi o que inspirou Alencar a escrever Lucíola, que é um dos meus favoritos nacionais e uma grande surpresa (junto com Senhora), porque eu não gosto da escrita do Alencar. Então eu precisava conhecer Dumas (o filho)! A edição é da Martin Claret, que eu não curto muito, mas essa veio muito boa, tenho que admitir. A diagramação é muito agradável, apesar das folhas brancas, e a capa é uma gracinha. Li em um dia porque não é possível fazer outra coisa quando se começa a ler esse livro. Sempre que eu leio alguma coisa de um dos Dumas, é como se eu tivesse voltado à infância novamente! É tão confortável que parece que o livro é o meu edredom hahaha Sério, leiam esses dois! 

Homem-Aranha: De volta ao lar; XX e Uma Beleza Fantástica

Fazia muuuuito tempo que eu não ia ao cinema! A última vez, tinha sido em fevereiro ou janeiro, pra ver Moana. Mas enfim, esse mês passado eu fui ver o Homem-Aranha. Eu não sou fã de heróis, mas gosto muito dos filmes do Peter e do Batman, então fui ver com as minhas irmãs e prima. Me surpreendi com o tanto que gostei do filme! É muito engraçado e criativo! Sem falar das diversas referências aos meus filmes preferidos, entre eles, Mean Girls. 92% no Rotten Tomatoes! (Esse é o único que não tem na Netflix)
Eu tenho uma tradição com minhas amigas e irmã, de que sempre que formos dormir juntas, temos que ver um filme de terror. Esse mês, foi XX, na Netflix. É realmente muito bom! É dividido em quatro contos de horror, uns mais psicológicos e outros mais trashs, o que ganhou meu coração! Vale muito a pena. 72% no Rotten Tomatoes!
Eu assisti a Uma Beleza Fantástica ontem. Eu tava bem à procura de um desses romancezinhos leves que inspiram e emocionam, mas não muito. E bem, ai estava essa produção do Simon Aboud que, não por acaso, lembra muitíssimo O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. É bom, mas além de me parecer uma imitação muito falha, não tem muita coesão nem nada. É meio estranho, mas não como filmes que se propõem a ser estranhos (tais como Heathers, Donnie Darko), mas como se a estória tivesse se perdido no meio da coisa toda. Mas repito, é bom. 71% no Rotten Tomatoes.

26 de julho de 2017

Sobre a solidão das transfigurações // 12 cartas em 12 meses

Aprendi com a Anne Frank que a melhor forma de desabafar e analisar os problemas que você naturalmente tentar fugir, é escrevendo. Isso me ajuda e espero que ler ajude os que estão passando por algum conflito interno ou pela mesma crise que eu.
Uma carta de revolução é meio difícil de fazer. Eu pensei por um tempo em algo que eu queria urgentemente revolucionar e o texto a seguir surgiu. Não é nenhum manifesto e não convido ninguém específico a qualquer coisa. Mas para mim, é revolucionário que eu admita que não sou mais quem eu por tantos anos tive orgulho de ser. Essa revolução acontece aqui dentro e é sobre isso que escrevi. Espero que entendam e que eu não me arrependa de ter postado rs
Aos que leem esse blog há algum tempo, eu acho que vocês perceberam a mudança de posts de 2016 pra 2017. A última coisa que publiquei aqui ano passado, foi sobre literatura. Desde então, eu passei a escrever muito mais textos e a maioria deles são sobre meus novos e incômodos impasses existenciais. Espero que isso mude em breve. E estou bem, sim. Só mais introspectiva.
Obrigada aos que permaneceram.


  • Julho: Uma carta de revolução.


Eu mudei tanto que nem consigo acreditar que ainda me chamam pelo mesmo nome. Porque eu não reconheço mais quem eu fui por tantos anos.

Eu era agitada demais, sempre parecia feliz e nunca realmente me importava. Desde a quinta série, quando me decepcionei com a pessoa que eu mais amava (e não amava como amo hoje, definitivamente), só porque eu a idealizei demais e ela não conseguiu superar minhas expectativas, eu passei anos sem me ligar intimamente com ninguém.

Sabe, quando você se sente mais sozinha, é quando precisa tomar conta de si mesma, prestar atenção na única pessoa que te acompanhará pra sempre.

E foi isso que eu fiz.

Me conectei comigo das formas mais intensas e superficiais que existem. 
Comecei a me vestir diferente, passei a prestar atenção nos meus próprios gostos, cortei meu cabelo, passei a falar o que eu queria falar sempre e com quem eu queria falar. Criei o blog, escutei indie pela primeira vez, fiz um monte de amigos virtuais, conheci o feminismo. Passei um tempo estudando reforma agrária só porque gostava do nome, debati em aulas sem me importar em ser odiada, dancei, fui ao cinema pela primeira vez e depois não sai mais de lá, escrevi sobre uma menina que queria ser presidente.

Fui à outro país, enfrentei meu medo de água, parei de usar sutiã, passei um dia sem tomar banho porque estava muito frio e porque eu me senti uma revolucionária, abracei minha mãe algumas vezes, conversei com meu irmão sem querer mata-lo depois, desenhei um vestido que hoje está fora do papel, no meu guarda-roupa. Comprei um salto que me deixa bonita e confortável ao mesmo tempo, bebi álcool com os meus amigos e não me senti culpada, fui a uma boate e me diverti muito (!!!), cantei Garota de Ipanema na frente de um monte de gringo, fiz amizade com gente do estado todo, comi bolo de sorvete e decidi que era a melhor coisa que tinha provado na vida.

Vi baleias pessoalmente, desfilei em uma passeata de natal bem ao estilo americano, chorei horrores por não conseguir me dar bem em matemática quanto o Madz e depois ri loucamente da minha imaturidade, dormi sozinha por 5 meses e passei algumas noites em claro refletindo sobre a vida ou com medo de algum filme de terror. Fui filha única por algum tempo, escutei Roberto Carlos porque estava com saudades de casa, li livros que me construíram.

Tirei nota baixa, ganhei medalhas de melhor aluna e fui oradora da classe, briguei com pessoas que importam/vam muito pra mim, perdi uma amizade que era tóxica mas que me deixa muito saudosista sempre que penso nela, cresci alguns centímetros. Dei aulas de História, quase morri com uma bronquite que me trouxe mais coisa do que tirou, passei a assistir séries, me apaixonei por musicais, participei da educação física, matei aula pra ler Júlio Verne, fiz dois ENEMs e um deles me rendeu uma boa história, assisti uma novela com minha mãe e irmã mais velha.

Fiz e fui um monte de coisas.

Mas desde que o bendito relógio chegou à meia noite e comemorei um ano novo cheio de possibilidades assustadoras, parece que dezessete anos de mim foram levados pelo mar junto com todas aquelas oferendas. E desde então, eu me olho no espelho e não consigo mais ver o que eu esperava ver sempre.

Eu gosto de quem eu sou, na maioria das vezes.

Eu acho que sou alguém que dá o que pode para as pessoas que ama. E que ama, primeiramente. Mas eu não posso não me surpreender com a forma que estou vivendo e nem posso dizer que estou satisfeita. É como se tudo o que eu posso dar fosse pouco demais até pra mim e eu acabo tentando me isolar, mas diferente de como era anos atrás, eu não me sinto mais habitada quando estou sozinha. Eu me sinto sozinha e pronto.
Pode ser que isso seja uma transição como eu desesperadamente espero que seja, mas até lá, desculpem amigos e família por eu não sair do quarto e por eu querer chorar e não conseguir. Eu sou uma péssima companhia no momento, mas eu preciso de vocês.

Me desculpo por ser assim, mas ao mesmo tempo, não quero me desculpar.

Não sei se vou voltar a ser aquela menina espirituosa que falava muito rápido e queria ser um monte de coisa ao mesmo tempo e fazia vocês escreverem diários coletivos ou aprenderem palavrões, mas eu preciso saber se vocês vão gostar da nova pessoa que vem desatando a crescer aqui dentro e que ainda não está pronta pra sair do forno completamente.

Espero que eu seja pra vocês o que aquele bolo de sorvete foi pra mim. Eu já amava bolos de festa, e achei que bolo de sorvete era diferente demais. Só que diferente é o que a gente precisa às vezes.
Thainara (?)
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